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Balé Ralé coloca em xeque a moralidade do homem de bem

Balé Ralé é um dos três espetáculos que compõem a Ocupação Marcelino Freire – Palavra Amassada Entre os Dentes, com direção de Fabiano de Freitas. O texto de Marcelino Freire vai ao encontro da pesquisa do Teatro de Extremos, que vem pensando as questões de gênero e da diversidade. Os personagens de Balé Ralé caminham pelas beiradas do que é legitimado socialmente, nas fronteiras da dignidade, em terrenos marginalizados e com difícil ou quase nula inserção social. Trata-se de um espetáculo contundente pela denúncia que comporta.

No elenco, Blackyva, Leonardo Corajo, Mauricio Lima, Samuel Paes de Luna, Vilma Mello e Juracy de Oliveira (stand in) alternam-se em histórias que carregam a marca da violência (simbólica, física, social, psicológica e por aí vai), numa composição que lembra um pouco a de um sarau, em que há um microfone aberto (embora aqui seja apenas o formato o que remete ao de um sarau, não estando, claro, o microfone aberto) alternando-se às cenas performáticas, cheias de musicalidade, que dão vida a relatos difíceis, impregnados de sofrimento.

Temos, então, personagens abandonados, destroçados, entregues à própria sorte, desabafando ou expressando sua dor, sua revolta, sua injúria, personagens esses que reinventam (ou tentam fazê-lo) um quotidiano difícil, relativizando, muitas vezes, valores caros aos homens de bem, colocando em xeque a civilidade desses homens, os princípios que lhes são próprios, a moral que lhes serve de bandeira (e que, por certo, não abrange a todos), denunciando sua hipocrisia, assinalando-a sem receio.

Esse é o exemplo da esquete em que a personagem nega qualquer possibilidade de fazer parte de um movimento pela paz. Não está interessada nisso que chamam de ‘paz’, não quer fazer coro nem dar substância a essa palavra politicamente correta que não faz parte de seu quotidiano. É clara, honesta e direta ao questionar essa noção – paz –, ridicularizando os movimentos cujos objetivos, se alcançados, não beneficiarão a todos.

Outro exemplo é a esquete da mulher que faz a lista de homens e mulheres com quem se deitou e os filhos que entrega para o mundo, vendendo-os, se for preciso, em troca da quantia monetária necessária para adquirir um sofá, no sinal, para desconhecidos, sem arrependimento ou dilema moral. Vilma Melo está excelente no papel dessa mulher que não tem medo de fazer a sua lista e de se qualificar como mãe excelente, tão boa quanto qualquer outra. A atriz também dá um show num dos primeiros esquetes, em que descreve uma experiência visceral de violência.

Mas, ainda que sejam interessantíssimos os personagens trazidos ao palco e algumas de suas histórias de sofrimento, o espetáculo acaba se estendendo mais do que seria necessário. Algumas esquetes poderiam ser reduzidas, dado que o texto, aqui e ali, começa a se repetir. Sessenta minutos de espetáculo seria um tempo suficiente para trazer, sem cansar, a denúncia contida em Balé Ralé, priorizando um pouco mais algumas cenas em detrimento de outras, reduzindo as falas. É nesse sentido que o espetáculo começa bem, com a ótima direção musical de Gustavo Benjão, mas aos poucos vai se tornando enfadonho, ainda que não perca sua força de impacto. Poderia impactar ainda mais se fizesse uso de uma edição que priorizasse alguns elementos dos personagens e suas vivências urbanas trágicas.

FICHA TÉCNICA

Texto: Marcelino Feire

Concepção e Direção: Fabiano de Freitas

Elenco: Blackyva, Leonardo Corajo, Mauricio Lima, Samuel Paes de Luna, Vilma Mello e Juracy de Oliveira (Stand In)

Direção de Movimento: Marcia Rubim

Luz: Renato Machado

Direção Musical: Gustavo Benjão

Cenário: Pedro Paulo de Souza e Evee Avila

Figurinos: Luiza Fardin

Pesquisa Visual: Evee Ávila

Assistência de Direção: Juracy de Oliveira

Direção de Produção: Veronica Prates

Coordenadora Artística: Valencia Losada

Coordenadora de Planejamento: Maitê Medeiros

Produtor Executivo: Thiago Miyamoto

Coordenador Técnico: Iuri Wander

Idealização: Fabiano De Freitas

Realização: Teatro de Extremos + Quintal Produções

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