A intensidade do cinema obscuro de James Gray em “Z – A Cidade Perdida”

Existe um ponto nevrálgico no cinema de James Gray que está na exatidão com que expõe a humanidade de suas histórias, através – até graficamente – de um clima obscuro, como se para ele, sempre fosse mais interessante a percepção de seus indivíduos através de suas inquietações internas e soturnas. De Os Donos da Noite até o recente (e que chega ao paroxismo dessa máxima) Era Uma Vez Em New York. Até quando debruçou sobre as relações amorosas, no ótimo e devastador Amantes, Gray sempre trabalha em cima de desolações pessoais, ilustrando com uma fotografia obscura e direção milimetricamente distanciada.

Em seu novo trabalho, Z – A Cidade Perdida, projeto que circula por Hollywood faz tempo, ele segue sua linguagem que quase vira uma metáfora da própria história em si, já tão cheia de alteridade e mistério. Baseado no livro homônimo de David Grann, se passa no século XX e é baseado na história real do explorador Percy Fawcett (Charlie Hunnam). Ele viaja até a Amazônia em busca de evidências que comprove a existência de uma civilização avançada que habita a região. Apesar de conseguir algumas provas, Percy é ridicularizado perante a sociedade londrina e volta sempre para seu ponto inicial, com ajuda de seu auxiliar (um cada dia mais interessante Robert Pattinson) em busca de mais pistas para chegar a tal civilização. Mesmo para quem não leu o livro, já conhece um pouco essa história e seu triste final. Se é que o tem.

Gray retrata esse homem através da bravura de sua convicção. Esse caminho é muito claro por não deixar que a trama caia na burocracia histórica dessa jornada. Mesmo perpassando assuntos tão importantes para época como a questão do Imperialismo vigente na Primeira Guerra Mundial, e como isso foi se tornando um problema comercial, é nesse homem, obcecado por desbravar a floresta Amazônica, em trilhas que o homem (branco) nunca havia pisado, que o filme se constrói. Tanto que seu casamento parece existir para ser o suporte emocional para essas viagens, espacialmente na figura de sua esposa Nina (Sienna Miller).

O roteiro – por mais que romantize a história real – deixa bem claro o quanto a civilização antagonizava o desbravamento de Percy. Era como se na mata fechada que ele encontrava o seu sentido na vida. A vida nessa busca não era fácil, principalmente com os revezes da natureza e antipatia dos índios, mas era esse desafio que o movia – até porque a “civilização” não lhe dizia nada além de privilégios questionáveis.

James Gray mostra essa obstinação sempre espreitando um certo gosto amargo da sua realidade. O final exprime isso de maneira alegórica e extremamente forte. É como se conseguisse dar forma à melancolia do destino impreciso de sua história real. Assim como todos os seus filmes. Assim como é o seu cinema. 

Leia nossa primeira crítica do filme aqui

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