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“O serviço” cria narrativa dimensionada pela fantasia e pelo perigo

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Se o fio é uma longa linha cuja jornada pode ser comparada à saga de um herói como Ulisses, voltando para a casa depois de inúmeras aventuras, fiar pode ser seu contraponto não menos aventuroso que se está em préstimo com algo ou alguém. Ter algum tipo de penhor a provar/dever. Mas se no caso da fiança a condução é coercitiva, tendo o narrador e o personagem provar sua condição ou seu estado, e mesmo ele quando colocado em um ambiente que não conhece, testará a si mesmo e ao leitor que o lê?

Mas como são as palavras? Se usarmos a palavra confiança em um contexto textual muda completamente. Já passamos do reino das improbabilidades para o mundo seguro e confortável do que narramos ao outro. E nesta relação entre afiar e confiar passamos pelo real e o que se pode observá-lo de longe ou de perto; quando não entendemos o real, abre-se uma brecha para a fantasia, o devaneio, e para uma palavra muito usada hoje: a paranoia.

No romance O serviço do escritor Roger lombardi, publicado pela Editora Patuá, temos um homem que entra numa casa com um longo corredor e no seu alcance físico: uma sucessão de portas. Além de ter nas paredes quadros com uma espécie de mágico segurando um coelho. No espaço alucinatório, os ambientes guardam uma quarta ou quinta dimensão. Trazem para o coletivo um espaço que não tem tamanho próprio.

Assim como Dário Noronha, narrador desta história, estabelece laços afetivos com cada ambiente que entra através de uma porta dissimuladamente aberta para ele, os personagens que vai encontrando pelos recintos no primeiro um amplo teatro, a realidade do afiar e da confiança vão esgarçando em surtos surreais, a fronteira do humano com o animal se imbricam criando um efeito de suspensão do crível. Mas para a literatura é exatamente nesta suspensão que o poder de atração e síntese se faz onipresente.

Dário  precisa atestar que as coisas que acontecem dentro do lugar/história são reais para ele, até como forma de lastro como pessoa física que como entrou quer sair dali. Mas há, na medida que vai se enredando pelos corredores, um comprometimento ético de suas ações com estes personagens que parecem que estão presos no sentido da memória do lugar. Sua ação o empuxa para ou ficar ou sair, mas ele não sabe que regras são utilizadas ali para tomar esta decisão. A relação especular entre sua imagem viva e morta, entre apego e desapego à experiência, tudo estará em jogo para sair dali.

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