Assisti ao show da Nação Zumbi na última sexta-feira no Circo Voador por conta da comemoração dos 30 anos do disco “Da Lama ao Caos”. É clichê descrever o som do principal nome do mangue beat a partir da ideia da “mistura”, algo entre o maracatu de baque virado e a música pop. Mas não tem como falar da energia de rotação que aquela musicalidade gera sem falar na especial fusão que eles conseguiram fazer.
Toda música é resultado de misturas. Existem músicas que mais visivelmente são junções de universos diferentes, como o tecnobrega, que junta o brega do Pará com música eletrônica. E existem sonoridades que parecem mais definidas dentro de um gênero específico, como o rock do AC&DC, por exemplo, onde é mais difícil perceber os componentes originários que foram misturados para gerar aquele som.
Mas, de qualquer forma, todo gênero nasce da interposição de diversos elementos culturais, comportamentais, estéticos e propriamente musicais. E o que chama atenção é que a inteligência artística de Chico Science e os grooves da Nação Zumbi protagonizaram uma das mais bem sucedidas alquimias sonoras feitas na música brasileira das últimas décadas. Arte é síntese e a Nação conseguiu brilhantemente combinar estilos, técnicas e ideias para criar uma nova música que é mais do que a mera soma de suas partes.
Partindo do manguezal como um ecossistema rico em diversidade, CSNZ criaram um imaginário próprio, remixando traços da música local, pernambucana e brasileira, com conteúdos globais de música urbana predominantemente anglófila. Toda música, na verdade, é local ou regional. Mas musicalidades que vêm do centro do capitalismo mundial nos parecem menos misturadas e menos “regionais”, ainda que, no final das contas, os Beatles sejam muito Liverpool e Inglaterra, e o Migos seja muito Atlanta e EUA.
Em Pernambuco, o que CSNZ fizeram foi associar psicodelia e cibernética às alfaias, fundindo rap, rock, ska, soul, funk, música eletrônica, reggae e dub com as sonoridades do caboclinho, ciranda, coco, maracatu e samba de roda. E este tipo de síntese, muito buscado mas nem sempre alcançado, funcionou muito bem, produzindo efetiva inovação e a expansão de fronteiras artísticas.
É tecnologia e tradição, viabilizando, inclusive, a aproximação de audiências de diferentes origens culturais, todos com a sensação de estarem ouvindo uma música muito avançada, cosmopolita e brasileira. Um exemplo perfeito de como fazer música pop de forma inventiva e popular ao mesmo tempo, fascinando os outros artistas, a crítica e o público.
A grande arte nesse processo foi reafirmar para os latino-americanos as possibilidades de reprocessamento dos conteúdos que recebemos do ocidente, encarando a música como um espaço de entrecruzamento das contradições do mundo contemporâneo. Assim, a música pop pode ser gestada a partir do popular, afirmando-o e negando-o, simultaneamente, como proposta de intercâmbio entre o midiático industrial e nossas matrizes culturais.
Ressignificar o que consumimos, a partir de apropriações e ressemantizações, sem necessariamente aderir à identificação direta com o norte global. Esse é o saber estético que nasce da mistura proposta por CSNZ. É diálogo e confrontação entre diferentes, incorporando a divergência e a transação como dados centrais da criação musical.
Por conta de tudo isso, naquela noite no Circo Voador, o público abriu uma roda no começo da noite e ela só se fechou ao final da última nota do show. Numa grande exibição, onde, mais uma vez, os artistas populares do Brasil nos lembraram que, na música, somos uma potência exuberante, rica e descolonizada.








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