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“007 contra Spectre” mantém o bom nível dos filmes da “Era Daniel Craig”

Desde que os produtores Michael G. Wilson e Barbara Broccoli decidiram dar as costas para os filmes de James Bond que estavam cada vez mais fantasiosos, mesmo após o grande sucesso de bilheteria de “007 – Um Novo Dia Para Morrer” em 2002, a série voltou a ganhar interesse, não só de fãs, mas também de quem achava que o espião com licença para matar estava começando a ficar ridículo e em curva descendente. Assim, com filmes que tinham um tom bem mais realista do que já tinha sido apresentado antes na franquia, embora com alguns elementos inverossímeis, 007 ganhou uma nova roupagem, mais adequada para o cinema de ação atual, cujo principal referência foi a saga de Jason Bourne, e um novo rosto, com Daniel Craig assumindo o papel que tinha sido interpretado por Sean Connery, George Lazemby, Roger Moore, Timothy Dalton e Pierce Brosnan.

O resultado foi mais do que positivo, o que culminou com a consagração de “007 – Operação Skyfall”, em 2012, quando arrecadou mais de US$ 1 bilhão de bilheteria mundialmente, além do respeito da crítica e vários prêmios, inclusive dois Oscars, um deles para a bela canção-tema “Skyfall”, interpretada por Adele. O problema que surgiu é: como superar tamanho sucesso sem perder o que já foi conquistado, ao mesmo tempo em que é preciso adicionar novos elementos e (talvez) reciclar antigos? A resposta que Wilson e Broccoli deram foi “007 contra Spectre” (“Spectre”), filme que pretende encerrar questões sobre o passado do mais famoso espião do cinema e preparar terreno para uma nova fase. Embora não atinja completamente a excelência obtida com a aventura anterior, a mais recente produção possui qualidades suficientes para não desagradar quem havia se empolgado com a era iniciada com “007 – Cassino Royale”, em 2006.

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A trama começa na Cidade do México, durante a celebração do Dia dos Mortos, para onde Bond (Daniel Craig) vai, após receber uma misteriosa mensagem que pede para investigar o bandido Marco Sciarra (Alessandro Cremona). Após um (literalmente) bombástico confronto, o espião viaja para Roma, onde conhece a esposa de Sciarra, Lucia (Monica Bellucci), e obtém informações sobre um secreto grupo criminoso do qual o marido fazia parte. Em busca de mais pistas, Bond pede a ajuda de Moneypenny (Naomie Harris) e Q (Ben Whishaw) para descobrir o paradeiro da médica Madeleine Swann (Léa Seydoux), filha de seu antigo inimigo, o Sr White (Jesper Christiansen), que pode lhe fornecer mais dados sobre a sinistra organização. À medida em que avançam as investigações, Bond descobre que a facção, mais conhecida como Spectre, é comandada por Franz Oberhauser (Christoph Waltz), que parece conhecer segredos sobre a sua vida e pode ser o responsável por vários problemas que o agente teve que enfrentar em sua trajetória.

O que salta aos olhos em “007 contra Spectre” é a espetacular parte técnica, especialmente na fotografia, assinada por Hoyte Von Hoyteama, que se destacou por seus trabalhos em“Ela” e “Interestelar”, e colocou um tom mais amarelado nas belíssimas locações em países como o México, Itália, Marrocos, Áustria e Inglaterra, que deu efeito bastante eficaz. A edição assinada por Lee Smith ajuda a manter o pique do filme, um dos mais longos da série, com 148 minutos de duração, embora possa entediar parte do público lá pela metade por não ter tanta ação tanto no início quanto no fim do filme.

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À frente dessa equipe, está o ótimo diretor Sam Mendes, que mostra mais um ótimo trabalho após “Operação Skyfall”. O cineasta já merece respeito pela sensacional sequência de abertura, num plano sequência muito bem elaborado durante a festa do Dia dos Mortos. Além disso, Mendes mostra que sabe mesmo como dirigir atores e faz com que o elenco segure bem a onda, sem nenhuma atuação que destoe negativamente. Ele também mostra segurança para conduzir as diversas cenas de ação, especialmente no clímax.

Mas, infelizmente, “007 contra Spectre” possui alguns pecados, especialmente no roteiro, escrito a oito mãos por John Logan e Neal Purvis & Robert Wade e Jez Butterworth.  Os autores parecem não ter se preocupado em tornar seus personagens mais profundos e acabaram tornando o comportamento e a reação de alguns, em certos momentos, pouco convincentes. De uma hora para outra, eles tomam certas atitudes (não escreverei quais, para não dar spoilers) que não fazem o maior sentido, como se fosse a coisa mais natural do mundo. É claro que não dá para pedir coerência num filme de James Bond. Mas com o que tinha sido feito nos filmes anteriores, onde a coerência, em maior ou menor grau, predominava, aqui é deixada um pouco de lado, como se estivéssemos assistindo a um filme antigo da franquia. Outra falha fácil de encontrar está na inabilidade dos roteiristas em construir reviravoltas que realmente surpreendam. Em muitos momentos da história, um espectador mais atento pode até dizer “Eu já sabia!” diante das revelações que vão surgindo, especialmente se ele for um conhecedor da mitologia Bond.

Aliás, o filme prossegue em sua missão de reinserir elementos que se tornaram clássicos para o personagem criado por Ian Fleming. Desta vez, podemos ver desde o quartel general megalomaníaco e o mau hábito do vilão de contar todo o seu plano a Bond antes do herói sabotá-lo, até a volta dos acessórios especiais para lutar contra os bandidos e o capanga forte, praticamente invencível e quase mudo, aqui representado pelo Sr. Hinx, interpretado por Dave Bautista, que se destacou como o Drax de “Guardiões da Galáxia”.

Mas o roteiro também tem seus méritos, como ver o novo M (Ralph Fiennes), mais na ativa do que costumava ser em outros filmes, assim como Moneypenny e Q, por causa da fusão do MI6 com o Centro de Segurança Nacional, liderado por Max Denbigh (Andrew Scott), codinome C, que quer acabar com a divisão 00 (de onde vem Bond), o que torna seus personagens bem mais interessantes. Outra questão relevante é a proposta de C de ter um controle ainda maior sobre a privacidade das pessoas, algo que merece sempre a atenção em tempos de internet, redes sociais, WikiLeaks e outros que deixam as pessoas cada vez mais expostas com um simples clique.

Em sua quarta atuação como James Bond, Daniel Craig está cada vez mais dono do personagem, convincente tanto com seu carisma para conquistar as mulheres quanto por sua frieza para executar suas missões, mas também se sai muito bem em momentos mais dramáticos. Christoph Waltz, já bastante experiente em fazer vilões, não decepciona apesar de ser quase uma vítima de seu personagem superficial. A bela Léa Seydoux faz bem o papel de Bond Girl, porém se destaca mais quando mantém uma aura de mistério. Nas cenas em que é a donzela em perigo, não consegue sair do lugar comum. O maior desperdício do elenco, no entanto, é Monica Bellucci, que aparece menos do que merecia e parecia ter um grande potencial, o que é uma pena, já que tem uma boa química com Craig.

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“007 contra Spectre” parece encerrar uma fase para o agente secreto e prepara o terreno para a próxima etapa. Tudo o que precisava ser mostrado sobre seu passado já foi revelado e não há necessidade de mais. Afinal, Bond não é Jason Bourne, não está em busca de respostas sobre quem ele realmente é. Apenas quer executar sua missão, salvar o mundo (ou qualquer coisa que valha), beber vodka martini (batido, não mexido, claro!) e ficar com a mocinha. Há muito mais a explorar sobre o personagem e seu universo e tomara que os produtores entendam isso. Uma pena, no entanto, se confirmarem os rumores de queDaniel Craig deseja abandonar o personagem, pois o ator ainda tem muito a fazer como o espião. Mas mesmo que ele não continue, uma coisa é certa: assim como os diamantes, James Bond é eterno!

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