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“À Beira do Caminho” cai na armadilha da previsibilidade

 

O diretor Breno Silveira é um sentimentalista. Assumido. O próprio diz em entrevistas que faz cinema para emocionar por ser um individuo que acredita na força das emoções. Quando topou o desafio de dirigir o (até então) subestimado projeto de Dois Filhos de Francisco, essa sua passionalidade foi certeira e o filme foi o sucesso (artístico e de público) que foi. Porém, ao tentar abarcar a complexidade do abismo social do Rio de Janeiro em Era Uma Vez… sua sensibilidade não imprimiu qualquer coerência para além da banalidade do gênero.

Seu novo filme, À Beira do Caminho, equilibra essa dualidade. O sempre preciso João Miguel, vive o caminhoneiro sisudo João, que tem seu caminho cruzado pelo garoto de onze anos Duda (Vinícius Nascimento, que já havia brilhado em Ó Paí, Ó e aqui confirma seu talento). Depois de perder a mãe, e decidido a procurar por seu pai nunca conhecido em São Paulo, o garoto invade o caminhão de João para poder chegar ao seu destino. De início a relação dos dois é complicada e cheia de atritos, mas não é preciso muito tempo para que um enxergue no outro a família que lhe falta. 

O filme é baseado e pontuado por canções de Roberto Carlos, o que já lhe confere alguma universalidade para além da comovente história em si. A questão toda é que ainda que Breno conduza tudo com um cuidado e sinceridade que não se esvai no melodrama barato, o resultado acaba por ficar arraigada demais à necessidade de se fazer sentimental. Parece contraditório? Explico: estruturalmente, o diretor vai aparando as arestas de seu drama, mas como se trata de uma trama surradíssima (quantos road movies já não vimos em que um homem busca redenção na solidão e é confrontado com o passado através de um elemento novo em seu repetido cotidiano?) logo cai na redundância de uma bem intencionada proposta.

É claro que muitos vão se emocionar ou até se identificar com o cenário de desolação e esperança que À Beira do Caminho suscita. E o problema do filme nem é seu resultado sobre o público. Até cabe a reflexão se o lugar comum não é mesmo o ideal para uma assimilação. Aqui funciona? Pode ser. Mas nada me tira da cabeça que a vida é bem menos previsível que esse filme.

 

[xrr rating=3/5]

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