A beleza atemporal de Dersu Uzala (1975) em contraste com o Cinema Atual

Em um momento de escassez de grandes estreias nos cinemas, surge uma situação curiosa: as telas se dividem entre verdadeiras obras-primas e filmes que, embora possam entreter, não atingem a profundidade artística. Um exemplo claro disso é a possibilidade de escolher entre revisitar a obra-prima de Akira Kurosawa (1910-1988), Dersu Uzala, e assistir a reboots,…


Em um momento de escassez de grandes estreias nos cinemas, surge uma situação curiosa: as telas se dividem entre verdadeiras obras-primas e filmes que, embora possam entreter, não atingem a profundidade artística. Um exemplo claro disso é a possibilidade de escolher entre revisitar a obra-prima de Akira Kurosawa (1910-1988), Dersu Uzala, e assistir a reboots, remakes, continuações ou comédias leves, uma decisão que evidencia a disparidade entre o cinema que transforma e o que apenas passa o tempo.

Sinopse: O exército russo envia um explorador ao deserto nevado da Sibéria, ele faz amizade com um experiente caçador local.

Dersu Uzala, lançado em 1975, é muito mais do que uma simples narrativa sobre amizade; é uma reflexão sobre a natureza humana, o progresso e a morte. Kurosawa, em um momento delicado de sua vida, após o fracasso de Dodeskaden – O Caminho da Vida (1970) e seu afastamento de grandes produções, encontrou em Dersu Uzala a redenção criativa. O filme, rodado em uma tundra russa deslumbrante, se torna uma metáfora para o próprio renascimento do diretor, que havia enfrentado uma depressão profunda e uma tentativa de suicídio. Com o apoio da produtora Mosfilm, Kurosawa teve a liberdade de criar uma obra épica e intimista ao mesmo tempo, que conquistou, inclusive, o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

O impacto do filme é imensurável, não só pelo enredo, que explora a amizade entre o capitão e Dersu, mas pela forma como Kurosawa lida com temas universais. A relação entre o progresso da civilização e a natureza selvagem permeia cada cena, assim como a inevitabilidade da morte e a necessidade de encontrar sentido na vida. O filme carrega uma beleza crua e sincera, algo que poucos filmes conseguem transmitir com tamanha profundidade.

Enquanto isso, enfrentamos uma realidade cinematográfica com produções que são só puro entretenimento. Não há problema algum em apreciar filmes leves e divertidos, ou de ação e aventura, mas é impossível não fazer uma comparação quase cruel. Assistir a um filme como Dersu Uzala ao lado de uma comédia é como escolher entre uma refeição gourmet e uma porção de coxinhas congeladas. Ambas opções podem saciar a fome, mas só uma delas oferece uma experiência verdadeiramente transformadora.

O cinema, por definição, deveria nos transportar, provocar emoções e reflexões, e Dersu Uzala faz isso de maneira sublime. Após meses de consumo de filmes em plataformas digitais, a experiência de voltar ao cinema precisa ser memorável. Dersu Uzala nos lembra por que amamos o cinema: a capacidade de nos fazer viajar sem sair do lugar, de nos envolver em uma história tão profundamente que o tempo parece voar, e de, talvez, mudar a forma como vemos o mundo.

Em contrapartida, temos filmes que certamente cumprem seu papel de entretenimento, mas que, infelizmente, não oferecem a profundidade e a grandiosidade cinematográfica que muitos de nós esperamos. E, no fim das contas, a escolha é nossa: nos contentamos com o entretenimento rápido e descompromissado ou buscamos uma obra que nos faça lembrar da magia que o cinema pode ser?

Homenagem Póstuma Yuriy Solomin (1935-2024)

O renomado ator, diretor e ex-Ministro da Cultura da Rússia, Yury Solomin, faleceu em sua residência em Moscou, aos 88 anos, em 11 de janeiro. Figura proeminente no teatro e no cinema russo, Solomin foi diretor artístico do histórico Teatro Maly desde 1988, função que desempenhou até sua morte. Além de uma vasta carreira como ator, Solomin também era conhecido por seu trabalho como diretor e professor, tendo marcado gerações de artistas.

Ao longo de sua carreira, Solomin desempenhou mais de 50 papéis no teatro e participou de mais de 60 filmes e séries de televisão. Entre seus trabalhos mais conhecidos, destaca-se o explorador Arsenev, protagonista no filme soviético-japonês “Dersu Uzala” (1975), dirigido pelo lendário Kurosawa. O filme, rodado em 70 mm, conquistou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e solidificou Solomin como um dos grandes atores da época. Ele também ficou conhecido por suas atuações na série de televisão “TASS Is Authorized to Declare…” (1984) e nos filmes “Melodies of a White Night” (1976) e “An Ordinary Miracle” (1978).

Além de seu trabalho artístico, Solomin teve uma breve passagem pela política, atuando como Ministro da Cultura da Rússia de 1990 a 1992, durante o período de transição da União Soviética. Sua contribuição à cultura foi amplamente reconhecida ao longo de sua vida. Ele recebeu diversos prêmios e honrarias, incluindo o Prêmio Estatal da Federação Russa, quatro Ordens de Mérito à Pátria, além de títulos honoríficos como Artista do Povo da RSFSR e da URSS. Em 1996, foi também nomeado Artista do Povo do Quirguistão e recebeu a Ordem da Academia de Artes do Japão por sua contribuição à cultura mundial.

Nos últimos meses, a saúde de Solomin havia se deteriorado. Ele sofreu um derrame em novembro de 2023, permanecendo hospitalizado até janeiro deste ano, quando foi liberado para continuar sua recuperação em casa. Ele deixa um legado profundo na cultura russa e mundial, sendo lembrado como uma figura central do teatro e do cinema.

O enterro de Yury Solomin ocorreu no Cemitério Troyekurovsky, onde será sepultado ao lado de sua esposa, Olga, falecida em 2019.