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A Conversação (The conversation), de Francis Ford Coppola

Finalmente saiu em cópia DVD o aclamado filme de Francis Ford Coppola de 1974, estrelado por Gene Hackman. É realmente estranha esta demora em lançar um clássico de um diretor famoso que recebeu a Palma de Ouro em Cannes. Anteriormente, havia sido lançada uma cópia de VHS, dificílima de encontrar.

Coppola realizou A Conversação entre os seus dois Poderosos Chefões. Antes de terminar a edição deste filme (a cargo de Richard Crew e Walter Murphy), o diretor americano já estava trabalhando na continuação da série da máfia americana. Em 1975, O Poderoso Chefão II e A Conversação disputaram o Oscar, sendo Coppola o único diretor da história a ter dois filmes nomeados concorrentes ao melhor filme simultaneamente. O próprio diretor, que já havia fundado a Zoetrope, sua produtora, foi o roteirista deste filme que confessadamente é inspirado em Blow-up de Antonioni.

O filme conta a história de Harry Caul, profissional de vigilância (surveillance) e espionagem particular (vivido por Gene Hackman em atuação extraordinária) que é contratado para espionar um casal e durante um passeio deles por um parque grava secretamente a “conversação” entre o homem e a mulher no meio do burburinho de uma multidão de pessoas. Mais tarde, amplificando e “limpando” a gravação por intermédio de uma série de dispositivos de áudio, Harry consegue reconstituir a conversa sem, no entanto, entender seu conteúdo. O casal pode ser a mulher, ou secretária de seu pagador, que conversa com seu sócio numa empresa. Aparentemente, ambos estão tendo um caso e o espectador imagina ser este o motivo da espionagem.

Harry Caul é contratado apenas para espionar e gravar conversas, não para interpretá-las. Ele vive angustiado, pois um de seus “trabalhos” anteriores acabou levando ao assassinato de inocentes. Ele não deveria se questionar sobre a questão ética de gravar pessoas sem o conhecimento destas, mas neste caso em particular, ele sente que o casal corre algum risco de vida. Ele passa e repassa a gravação procurando algo fora de lugar e num determinado momento, quase inaudível, ele parece reproduzir o que parece ser uma mensagem de perigo na banal conversa do casal. É então, corroído por remorso e dúvidas, que ele começa a questionar sua atividade.

Por ter de vigiar pessoas em seu trabalho, Harry Caul se acha vigiado o tempo todo. Ele faz ligações de telefones públicos e evita contatos sociais. Não revela seus pensamentos, endereço ou profissão nem para uma namorada . É seco com seu colega de trabalho. Não gosta de responder a perguntas. É um homem sem vida privada e sua única forma de extroversão é tocar jazz com seu saxofone.

Em breve, ao tentar desfazer seu contrato e não entregar as fitas, ele se sentirá perseguido e vigiado pelo seu próprio contratador. Este sentimento continuará numa obsessão crescente, e mesmo depois do caso encerrado e tendo um desfecho totalmente inesperado para ele, tomará a forma de uma paranóia completa, num feitiço que toma conta do feiticeiro.

Como em Blow-up de Antonioni, Coppola realizou um filme que aborda a utilização de aparelhos técnicos que registram detalhes que escapam à percepção comum. No caso do filme do mestre italiano, é o detalhe quase imperceptível de uma foto; no do americano, é um trecho inaudível de uma gravação. Em ambos os casos, os aparelhos mediam a recepção da realidade, gerando ambiguidade e incerteza. Há em ambos uma crítica à forma de vida contemporânea completamente mediada por dispositivos técnicos que fazem o homem se sentir um estranho em seu mundo e na comunicação com seus pares. Esta estranheza está presente em ambos os filmes no comportamento angustiado e obsessivo de seus protagonistas. É uma crítica que não deve ser tomada ingenuamente: não é a defesa de uma comunicação mais “natural” ou não mediada que é defendida pelos diretores, mas o fato de não nos deixamos ser “jogados” sem consciência nas situações dominadas pela aparelhagem técnica, para não nos tornarmos marionetes delas.

Em A Conversação, há a cena interessante da feira de dispositivos sofisticados de escuta, gravação e vigilância. Estes equipamentos servem a empresas de investigadores que vendem serviço de espionagem para o mundo empresarial capitalista americano. É como se, na época dos socialismos de estado do Leste Europeu, das temíveis polícias secretas tipo Stasi, que se utilizavam de recursos de vigilância de cidadãos, Coppola estivesse dizendo que o ambiente corporativo competitivo americano não era muito diferente.

The Conversation funciona assim como uma crítica a uma espécie de “totalitarismo corporativo” onde mesmo em supostas democracias liberais é proibido ter uma vida privada completamente livre. Na Sociedade do Espetáculo, nunca sabemos se nossa vida mais íntima não está sendo de fato vigiada por sofisticados dispositivos que se tornam cada vez mais invisíveis. E isto não em nome da repressão política, mas em função dos mais obscuros interesses comerciais.

Resenha-crítica de Guilherme Preger especialmente para a Cinemateca do Ambrosia

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