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A inusitada releitura de Branca de Neve

Nos últimos 3 anos, tem havido uma tendência no cinema de adaptações de clássicos da literatura infantil, com nova roupagem, geralmente épica, tendo o público juvenil como alvo. Em 2012, Branca de Neve ganhou três novas versões: uma do diretor indiano Tarsem Singh com Julia Roberts no papel da Rainha Madrasta e ainda outra versão no melhor estilo Senhor dos Anéis, estrelada por Kristen Stewart, Branca de Neve e o Caçador. A terceira, que chega ao Brasil com relativo atraso, é Branca de Neve (Blancanieves, Espanha/2012). Trata-se indubitavelmente da mais interessante das três.

O diretor Pablo Berguer optou por contar a história em um filme mudo, preto e branco, usando o formato de tela 4:3, exatamente como era o cinema nos anos vinte do século passado, época em que se passa a trama. O diretor diz que usou esse recurso para promover uma volta ao passado completa. E foi muito bem sucedido, como também fora o vencedor do Oscar de melhor filme em 2012, O Artista, de Michel Hazanavicius. Não só pelo uso estético da ausência de cor e letreiros para compreensão do que é dito, mas também recursos típicos do cinema da época, como imagens sobrepostas. Na verdade, o filme foi feito em cores e descolorizado na pós- produção, a forma mais barata e prática de se filmar em preto e branco hoje em dia.

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A famosa história dos irmãos Grimm é transposta para a Sevilha dos anos 20, no universo das touradas. Carmencita é filha do mais famoso toureiro da Espanha, que, após um acidente na arena, fica paralítico e torna-se vitima de Encarna (Maribel Verdú, soberba), que, aproveitando-se de sua súbita viuvez, arma um casamento para se apropriar da fortuna e glória do toureiro. Após a morte de Dona Concha, que cria Carmencita, a menina tem de morar com a madrasta, onde trabalha como escrava até crescer, quando conhece uma trupe de anões toureiros meio picaretas, mas que serão fundamentais para que ela dê continuidade à arte de tourear hereditária.

Berguer, que também dirigiu o inusitado Torremolinos 73, deixa claro que sua película é apenas inspirada em Branca de Neve, não é uma adaptação. Tanto que ele pensou em entitular o filme de “Carmem”.

blancanieves

É irresistível comparar a produção com O Artista, mas, apesar de usar a mesma técnica, Berguer consegue fazer com que em minutos o espectador se esqueça da produção oscarizada. E faz também com que se esqueça que o filme é mudo, dada a magistral inserção da trilha sonora, peça chave no processo de imersão promovido pelo cineasta. Ele afirma que sua intenção era fazer com que nos esqueçamos do mundo real durante uma hora e quarenta e quatro minutos, para vivenciar o que é projetado na tela, como um sonho. E seu objetivo é alcançado. Vale ressaltar também o magnífico trabalho de fotografia, direção de arte e figurinos (com destaque para os de Encarna, que se apresenta até em trajes sadomasoquistas).

Em suma, Branca de Neve é a versão do conto mais vanguarda que você já viu, sem sombra de dúvidas. Ao contrário dos anteriores, blockbusters bem finalizados, porém sem muito a dizer ou acrescentar; esse aqui é arte em sua quintessência. Em um período em que as telas se enchem com cores e volumes realçados pelas três dimensões, é louvável ver um filme utilizando a mais primitiva das técnicas audiovisuais de se contar uma história  e nos proporcionando uma profundidade e imersão que boa parte das produções que utilizam o moderno 3D estereoscópico apenas prometem.

 

[xrr rating=4/5]

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Maestria

Publicado por Cesar Monteiro

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