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“Alfa” se utiliza de belas imagens para contar história de amizade antiga

Deixados de lado por muito tempo, filmes que se baseiam na relação entre humanos e animais (principalmente cães e cavalos) faziam a festa de quem era fã do “gênero”, principalmente as produções feitas pela Disney no passado, sejam para o cinema quanto para a TV, em programas como Disneylândia (alguém aí se lembra dessa época?), que invariavelmente mostravam uma pessoa que enfrentava alguma dificuldade e contava apenas com o auxílio de um parceiro inesperado para superar todos os problemas.

Volta e meia, surge um filme que consegue voltar a essa temática e é bem sucedido em conquistar público e crítica graças às mãos habilidosas dos envolvidos, como Ang Lee, que graças ao seu “As Aventuras de Pi”, conseguiu o segundo Oscar de sua carreira ao mostrar a relação entre um jovem e um tigre após um naufrágio. Agora, Albert Hughes, que se tornou conhecido após realizar bons trabalhos em produções como “Do Inferno” e “O Livro de Eli” se arrisca ao comandar uma obra mais contemplativa e até mesmo intimista com “Alfa” (“Alpha”), que procura mostrar como aconteceu a primeira amizade entre homens e animais, contando com um irrepreensível trabalho visual. O resultado é um filme que arrebata os olhos e chega a emocionar, principalmente quem adora animais, ainda que possua algumas fragilidades que comprometem o produto final.

A trama se passa há 20 mil anos na Europa, quando os primeiros povos da Terra lutam para sobreviver a diversas adversidades, como o clima rigoroso e até mesmo a seleção natural, que privilegia os mais fortes. Neste ambiente, Tau (Jóhannes Lucas Jóhannesson), líder de uma das tribos, leva o seu filho Keda (Kodi Smit-McPhee) para participar de sua primeira caçada ao bisão (também conhecido como búfalo europeu), que garantirá o alimento para todos durante o inverno. Só que o jovem, ainda inseguro e inexperiente, acaba se ferindo gravemente e é dado como morto e deixado para trás pelo pai e os outros caçadores.

Mas Keda consegue se recuperar e, mesmo enfraquecido, tenta voltar para casa, que está há muitos quilômetros de distância. Durante seu percurso, o rapaz é atacado por uma alcateia de lobos e acaba ferindo um deles. Ele resolve cuidar do animal e, após certos estranhamentos, os dois começam a estabelecer uma amizade e Keda resolve chamar o lobo de Alfa. Com os laços que os une cada vez mais fortes, a dupla tem que lidar com as diversidades do clima da região para conseguir chegar ao seu destino.

O grande trunfo de “Alfa” é, realmente, a belíssima fotografia assinada por Martin Gschlacht (do terror “Boa Noite, Mamãe!”), que usa as locações nos Estados Unidos, Canadá e Islândia para criar imagens hipnóticas, privilegiando planos abertos para destacar as belezas e adversidades da natureza, com paisagens naturais e a iluminação certa para arrebatar o espectador. Ainda que, em alguns momentos, os efeitos especiais por computador acabem prejudicando o resultado, dando até um certo ar de artificialidade em algumas tomadas envolvendo animais, o filme é um verdadeiro deleite para os olhos. Quem curte produções como as apresentadas em canais de TV a cabo do tipo National Geographic, cor certeza vai ser arrebatado pela produção.

A direção de Albert Hughes também se destaca, já que ele precisa manter o interesse do público numa trama que conta com muitas cenas praticamente sem diálogos e com apenas dois personagens. O cineasta consegue tornar convincente a relação de amizade entre Keda e Alfa, essencial para que as intenções do projeto fossem alcançadas. Além disso, Hughes consegue dar um bom toque de suspense na sequência inicial e durante os momentos em que os dois lidam com certos inimigos que surgem durante sua jornada. Ele só não acerta em conter a pieguice de algumas sequências, tornando o filme num verdadeiro água com açúcar que pode incomodar aqueles que querem mais ação e menos sentimentalismo.

O principal problema, no entanto, reside no roteiro escrito pelo próprio diretor e por Daniele Sebastian Wiedenhaupt, cuja maior falha está em não se aprofundar mais nos personagens e nas situações criadas para a trama. Um exemplo disso está no fato de Keda ser hesitante ao agir como caçador numa cena e logo em seguida ele não demonstra nenhum medo ou arrependimento em atacar animais. Além disso, a história tem várias conveniências que soam tolas ou artificiais demais que impedem a trama de ser mais crível e acabam criando o efeito inverso que seus realizadores pretendiam. Outro problema está na edição do filme que, ainda que conte com transições de uma cena para outra bem interessantes, peca em utilizar um estilo mais “moderninho”, com excesso de fades e cortes tão rápidos que pulam de uma sequência para outra, sem que o espectador tenha tempo de absorver o que acontece na tela, resultando num ritmo meio esquizofrênico que não precisava existir.

Como o filme é falado num idioma rudimentar, para dar mais credibilidade à época retratada na trama, as cópias lançadas no Brasil foram todas dubladas. O que é uma pena, pois não é possível avaliar de forma mais precisa a atuação do elenco (principalmente seu protagonista, Kodi Smit-McPhee, mais conhecido por ser o Noturno de “X-Men: Apocalipse”), nem poder escutar a imponente voz de Morgan Freeman, que faz a narração da história. Essa medida, tomada inclusive em outros países, também contribuem para que a produção não consiga alcançar tudo o que poderia.

“Alfa”, no fim das contas, vale pelo belíssimo tratamento de imagens e pelo capricho técnico, que também passa pelo figurino dos personagens e alguns dos efeitos especiais. Mas desperdiça boa parte de seu potencial com erros que acabam tornando o filme numa mera Sessão da Tarde sobre animais de estimação. Mas dava para conseguir ir muito mais além disso.

Filme: “Alfa” (“Alpha”)
Direção: Albert Hughes
Elenco: Kodi Smit-McPhee, Jóhannes Lucas Jóhannesson, Natassia Malthe, Leonor Varela, Chuck
Gênero: Aventura Épica
País: EUA
Ano de produção: 2018
Distribuidora: Columbia Pictures/Sony Pictures
Duração: 1h 36min
Classificação: 10 anos

Publicado por Célio Silva

Sou um cara que, desde que viu Flash Gordon na telona, com 7 anos de idade, sempre foi apaixonado por cinema. Também curto muito TV, música e livros. Mas é na sétima arte que sinto o maior prazer.

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