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"Amantes Eternos" e a mortalidade da imortalidade

O cineasta Jim Jarmusch ainda faz o cinema mais indie europeu da safra norte-americana. Seus filmes têm o tempo, a estética(!) e a densidade contida nessa verdade. Ao jogar sua iconoclasta lente para o (atualmente valioso) universo vampírico, claro que todas as suas vicissitudes dariam uma encorpada toda própria ao intento, resultando no peculiar Amantes Eternos.
Com roteiro do próprio diretor, a trama literalmente plana sobre a relação de dois vampiros, Adam e Eva (claro!) que vivem a maturidade de suas imortalidades, num cotidiano banhado a apreciação de artes mortais, e consumo de sangue de bolsas sanguíneas hospitalares. Essa calmaria é quebrada com a chegada da pulsante irmã de Eva que, em contraponto à condição dos veteranos, desencadeia a quebra de paradigmas vigentes na vida do casal.
Antes de mais nada, é preciso reforçar o quanto a interpretação dos atores Tom Hiddleston e, especialmente, Tilda Swinton é espetacular. A estranheza de suas composições (um bom lugar comum, no caso de Tilda) estabelece uma sintonia absurda entre os dois, e Jamursch é genial ao fazer de suas expressões a mobilidade de seu filme.

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A narrativa tem alguns defeitos, especialmente na primeira metade do longa, quando o diretor deixa transparecer uma busca por consistência visual de sua história. Entretanto, estão nos detalhes dessa busca, que o diretor mais acerta. Seja no desprezo dos vampiros pelos “zumbis” humanos e deboche do esvaziamento social numa Detroit desromantizada, seja pelo viés suicida de seu protagonista, dado o enfado de sua própria existência, seja pelo cuidado com a direção de arte e trilha sonora como um todo. Amantes Eternos acaba por ser uma obra que fala da mortalidade da imortalidade, e o quanto isso é mais crível do que contraditório.

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