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Analisando as cenas extras de Prometheus

“Atenção, este artigo contém descrições detalhadas de diversas cenas do filme, se não quiser saber mais sobre a história e o que acontece no mesmo, recomendo ir ler outro artigo tão legal quanto este”.

Para aqueles que leram minha resenha de Prometheus, vocês perceberam que eu fui um tanto quanto ríspido com o diretor e o filme em si, elogiando por demais a qualidade técnica, tanto em termos de imagem quanto de som de um dos, senão o filme mais belo que eu assisti este ano.

O problema do filme, como eu ressaltei, foi seu roteiro e a sua desnecessidade ao tentar explicar certas situações e origens. Agora, com a chegada do Blu-ray do filme e a promessa de muitas respostas por parte do diretor Ridley Scott resolvi voltar ao filme que me causou espasmos e ânsia de vômito no cinema para constatar se as cenas deletadas e extendidas adicionariam algo mais. A resposta é sim, elas adicionaram algo que eu esperava que tivesse sido apenas mais um detalhe de desenvolvimento de personagens: o fervor religioso.

Sim, o fervor religioso. Parece estranho vindo de um filme que supostamente era para ser uma prequência do primeiro “Alien“, mas é o que se mostra em quase todas as cenas extras que foram cortadas. Para entender melhor, vamos ao que o filme nos mostra sem as cenas extras.

No filme, a Terra está em um estágio inicial de desenvolvimento da vida. Já havia algum tipo de vida vegetal primitiva. Chegam os engenheiros e através da morte de um deles, tomando uma gosma negra não identificada, nasce a vida, vamos dizer, superior. Milênios se passam e um grupo de cientistas descobre a localização do que supostamente é o convite destes seres de outro mundo em uma série de escavações arqueológicas ao redor do planeta, de civilizações distintas.

Nos extras

A cena inicial é maior e tem mais dos alienígenas, usando roupas que lembram mantos religiosos e o ato do engenheiro em tomar o líquido negro lembra e muito um sacrifício em prol de algo maior.

Em outro momento o grupo vai até uma lua distante, onde supostamente estariam os alienígenas e encontram corpos destes seres, mortos há mais ou menos 2000 anos. Os mesmos ainda planejavam enviar mais daquela gosma negra para destruir toda vida no planeta e recomeçar de novo, por causa de algo que ocorreu nesse período.

A cientista chefe, Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) é católica fervorosa e sua crença em tentar entender as questões fundamentais, no caso, de onde viemos, para onde vamos? Ela vê isso como algo mais importante do que a própria pesquisa científica e a descoberta dos seres alienígenas. O maior exemplo disso é como ela se prende ao seu crucifixo do começo ao fim do filme. Seguindo esta mesma linha, temos Charlie Holloway (Logan Marshall-Green), namorado/marido de Shaw e também ansioso para conhecer seu criador e fazer as mesmas perguntas. Nota-se em seu ombro direito uma tatuagem de uma cruz estilizada.

Ao se depararem com os corpos dos aliens, Charlie tem uma crise de fé e isso fica claro pela bebedeira que ocorre logo depois da primeira missão que claramente os levou a nada.

A cena de sexo entre Shaw e Charlie logo após a primeira missão foi totalmente alterada. Charlie começa a acusar Shaw e sua religião e que os alienígenas se mostraram uma perda de tempo. Shaw o estapeia seguidamente por não aceitar ele ir contra seus princípios morais e religiosos e logo em seguida acontece a cena de sexo, muito mais “violenta” do que originalmente mostrada.

Antes disso, logo após toda tripulação acordar, o capitão Janke (Idris Elba) monta uma árvore de Natal para mostrar a tripulação que o tempo continua passando normalmente. Nos extras, a cena é extendida e mostra, em close, o capitão pendurando um menino Jesus na árvore.

Nos sonhos de Shaw, que David (Michael Fassbender) fica observando, ela conversa com o pai, antes da morte do mesmo e em diversos momentos o tema religião surge e sua cruz aparece em foco, do lado esquerdo da tela, se sobrepondo a imagem desfocada.

Ainda, nas cenas extras, Janek e Vikers (Charlize Theron) conversam nos aposentos dela e vemos uma quantidade absurda de livros nas prateleiras, todos com as capas viradas para dentro dos armários, impossível de identificar cada um, exceto um certo livro de capa de couro que muito lembra uma bíblia ou um alcorão que Janek pega e manipula rapidamente, mostrando a capa para a câmera.

 

Fica claro que Ridley Scott tinha a intenção de colocar o tema religião com muita força, provavelmente em razão do roteiro original que não seria um filme da franquia Alien e sim uma história independente. Ao colocar o filme nas mãos de 2 roteiristas distintos para revisão, e mais um sem número de produtores que com certeza devem ter dado seus pitacos na história. A mera menção a fatos ocorridos há coisa de 2000 anos do filme implica, especialmente se verificarmos o tom católico das imagens mostradas nas cenas extras, que os engenheiros não ficaram satisfeitos com algo que nós fizemos naquela época. A conexão com a vida e morte de Jesus Cristo é quase um tapa na cara do espectador.

Ao editar o filme para exibição nos cinemas, a grande maioria das citações e imagens foram minimizadas para se criar algo mais ficção científica, porém, vendo o filme com as cenas extras, percebe-se que não se trata de uma ficção científica/horror espacial como o primeiro Alien e sim uma odisséia religiosa da humanidade em busca de seu criador.

Se o filme tivesse menos menções a aliens malvados que querem nossa morte e mais exploração das idéias ali criadas, talvez ele tivesse sido visto com outros olhos e quem sabe sua relevância se tornasse muito maior para todos. A crítica, é claro, viria de todas as demais religiões do mundo.

Por fim, eu deixei esta cena extra para o final para colocar fim ao debate. Na cena em que eles acordam um dos engenheiros na nave, diversos trechos dos diálogoso entre o engenheiro e David e depois de Shaw e David são cortados, indicando que eles estavam ali para dar vida eterna a Weyland (Guy Pearce), que se considerava um deus, da mesma forma que os engenheiros e que, o engenheiro, ao responder de onde veio, diz uma palavra que, na melhor tradução, poderia ser Paraíso, o que Shaw, enquanto leva a cabeça de David para a nova nave que eles usam para fugir, diz que vai ser o próximo destino deles: o Paraíso.

Ainda há outras cenas alteradas e deletadas, mas não vem ao caso desta discussão. A pior delas é a que o cientista punk que vira um zumbi/monstro na verdade vira um quase alien quando ataca a tripulação, com direito a cabeça extendida e garras nas mãos.

Conotações religiosas a parte, o que se percebe pelo excesso de cenas extendidas e regravadas é que o roteiro era um queijo suiço com diversos pais diferentes que ao final ninguém quis assumir inteiramente a paternidade.

A minha opinião a respeito de Prometheus permanece a mesma e eu só posso sentir pena de quem escreveu o primeiro roteiro e viu sua obra ser dilacerada para contar uma história totalmente diferente daquela que claramente era a intencionada.

  • Agora é que tudo faz sentido. Assiti 4 vezes ao filme e conversava com o pessoal que estava faltando coisa no roteiro, meio sem nexo. Valeu, obrigado por compartilhar.

  • Um baita filmao mesmo e com certeza seria uma baita franquia. Pena q Hollywood nao aproveitou. Preferiu colocar mais explosoes. Confesso q o filme despertou minha curiosidade e ai chega o dois e estraga contudo

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