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Bling Ring: A quadrilha leviana de Sofia Coppola

A música dos créditos dá uma boa descrição do grupo de ladrões de Hollywood no qual Sofia Coppola se inspirou para fazer o filme: “super rich kids with nothing but fake friends” (jovens super ricos com amigos superficiais).

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Há algo bastante frívolo sobre este grupo, eles não parecem se importar com nada. Mas ao mesmo tempo há algo de, não chegaria a dizer revolucionário, mas simplesmente diferente, ousado, interessante sobre o que estão fazendo. Porque mesmo que estejam roubando casas, não se importam muito sobre o que estão roubando pelo valor monetário daquilo. Eles idolatram aquelas pessoas, se sentem íntimos delas. E existe um valor sentimental, de status social naquilo que roubam. Aquelas marcas todas fazem parte do seu vocabulário como algo muito corriqueiro, muito cotidiano, são rodeados por aquilo.

Não levam as coisas pelo dinheiro, roubam para ter, para ostentar, para se verem revestidos daquele universo. Tanto é que as duas cenas em que estão vendendo os itens roubados, vendem por um preço muito aquém do valor real das mercadorias. Eles falam sobre isso com todos que conhecem, como se não percebessem que o que estão fazendo é errado, é grave, um crime, enfim. Se orgulham de suas façanhas. Ou simplesmente não se importam. É o tipo de situação em que você só se sente mal porque foi pego, não porque acredita que fez algo de errado. É a sensação de vergonha, porque alguém de fora te condena.

Foi interessante observá-los, porque não são niilistas, não estão querendo chamar atenção dos pais ausentes, nem são vítimas. Mimados sim, não dão a mínima pra nada, não acham que serão pegos porque estão de alguma maneira acima da lei, afinal, vivem em Los Angeles, a Cidade Proibida, aonde seus ídolos aparecem nas capas de revista por algum comportamento inadequado o tempo todo. Não quero entrar no clichê de dizer que estão seguindo um mal exemplo, só estou colocando esse fator como mais um elemento que pode ser considerado na equação dos acontecimentos. Assim como a música que escutam o tempo todo: raps cujas letras falam constantemente de como são fodas, estão no topo do mundo.

Ao mesmo tempo, é algo tão banal o que estão fazendo. Estão roubando de pessoas que têm muuuito dinheiro e muitas coisas. E não estão fazendo isso pra enriquecer. Eles gastam o dinheiro logo depois. E roubam de uma maneira tão aberta, tão “honesta” que os torna interessantes. Não quebram vidros, não são violentos, eles só se aproveitam das “oportunidades que deixam pelo caminho”.

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O status é definitivo, imprescindível. Querem sentir como é ter o estilo de vida daquelas pessoas que estão tão próximas a eles, que fazem parte de seu dia a dia. Eles literalmente vêem essas pessoas em lugares que frequentam. É um universo muito próximo, quase palpável. São seus vizinhos. Por que não? Não estão machucando ninguém. Me lembra um pouco uma cena de Donnie Darko, quando a professora interpretada por Drew Barrymore está analisando um texto de Graham Green “The Destructors”, no qual os personagens invadem uma casa, juntam uma pilha de dinheiro que encontram e colocam fogo, só pra ver o que acontece quando você inverte os valores, só pra ver o que acontece quando você destrói tudo. Claro que estou idealizando um pouco aqui. As pessoas do filme em questão não estão invertendo nada, pois almejam aquelas peças todas de glamour.  Mas, de alguma maneira, me lembrou, talvez pela falta de compromisso com seus atos, pela falta de propósito, pela liberdade com que agem. Como se fosse pela adrenalina, ou simplesmente porque podem. Existe uma clara diferenciação na maneira de tratar os personagens. O romantismo de Rebecca e a uma certa ingenuidade de Marc dão a eles os papéis mais carismáticos, em contraponto às duas irmãs extremamente dissimuladas Nicky e Sam.

Eles não têm nenhum ideal, não são como Robin Hood, mas tão pouco são maus. São apenas levianos. E o fato de terem se tornado celebridades depois desses eventos mostra o quão a sociedade americana realmente têm um fascínio, como o personagem de Marc pontua na sua entrevista, por histórias como as de Bonnie e Clyde – anti-heróis pela sua ousadia – pessoas que conseguem, mesmo que por pouco tempo, se dar bem e se safar. Se você estiver errado, mas for irado, for cool, tudo bem. Ser cool é muito importante pra esses adolescentes.

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Acho que pela primeira em muito tempo Sofia Coppola mostrou algo diferente, mostrou o universo que tanto retrata, de uma outra perspectiva, em que as pessoas não são vítimas de seu universo, mas tomam alguma atitude. Até pode ser que ela estivesse mais uma vez querendo mostrar o vazio dessa carcaça que revolve Hollywood e toda sua estrutura de vidro, criticando esse mundo que foi o seu desde pequena. Mas pelo menos dessa vez eu não me senti assistindo coitadinhos. São frutos desse universo que os rodeia sim, mas desenvolveram uma indiferença ativa e não mais passiva. Não foi niilista e vazio apenas. Não só deprimente e melancólico. Me fez pensar.

Como se o objetivo deles fosse ser uma imagem. Não querem ser nada, ter uma atividade, uma profissão. Querem estar na tela, nas revistas, nas noticias, ser famosos, mas mais do que isso, querem ser uma imagem idealizada deles mesmos. E tiram fotos o tempo todo porque assim cristalizam essa realidade que tanto almejam, se tornam as pessoas que querem ser. Em Somewhere, seu último filme, a sensação que me dá é que o protagonista não vê graça em nada, que a fama é vazia, que as relações são vazias, e eu sinto, nem tanto uma angústia, mas me sinto indiferente a ele, quase como se pensasse: “Cara, levanta daí e vai fazer alguma coisa. Deixa de sentir pena de você mesmo. A sua vida é vazia porque você deixa.” Tá, eu sei, meio cruel, mas eu realmente não consegui gerar empatia por aquele personagem. Entretanto, em Bling Ring não senti pena deles, mas sim que eles tomaram algum controle sobre a falta de sentido que os envolve.

Porque no fundo é como se dissessem “a vida é o aqui e agora e vou tomar o que quero”. Se não existe o amanhã, porque não aproveitar o hoje? Agir sem pensar nas consequências. Simples assim. Just living in the moment. Como uma outra música que ouvem, “Bad Girls de M.I.A., que repete o hino “Live fast, die young, bad girls do it well” (Viva rápido, morra jovem, garotas más fazem isso bem). E por tudo isso, contra todas as minhas expectativas, foi refrescante ver esse filme.

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Publicado por Raquel Gandra

VerificadoEscritorVideocastCinéfiloRepórterFotógrafo

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