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Cinemateca: Psicose e as lições de terror do mestre Hitchcock

É preciso tecer ainda mais elogios ao grande trunfo do diretor Alfred Hitchcock? Talvez seja redundância, mas “Psicose” merece ser lembrado e reverenciado sempre, porque sempre que é visto novamente, se torna melhor.

Marion Crane (Janet Leigh) rouba 40 mil dólares da empresa em que trabalha e sai para gastar o dinheiro. Consciente do crime que cometeu, ela se sente observada durante todo o percurso de carro. Mas há uma hora em que ela precisa parar e o único lugar para se hospedar na estrada é o Bates Motel, gerenciado pelo aparentemente tímido Norman Bates (Anthony Perkins). É estranho, todos os quartos estão vagos, mas Marion não tem saída: é lá mesmo que ela passa a noite. E é esfaqueada enquanto toma banho.

O desaparecimento de Marion leva a irmã dela, Lila (Vera Miles), a contratar o detetive Arbogast (Martin Balsam). Rapidamente ele segue as pistas e ruma para o Bates Motel, onde um destino trágico também o aguarda. Cabe a Lila investigar agora o sumiço de ambos e ser testemunha de uma descoberta macabra.

O que podemos acrescentar? A icônica cena do chuveiro já foi imitada, citada, homenageada e analisada à exaustão. Os momentos principais do filme não abandonam a memória de nenhum expectador. Mas é somente com repetidas revisitas que os detalhes saltam aos olhos. Sabia que “Psicose” foi o primeiro filme americano a mostrar a descarga de um vaso sanitário? Revolucionário. Reparou que o sutiã de Marion é branco no início do filme, mas preto logo após o roubo do dinheiro? Sua corrupção foi mostrada pela mudança da cor da peça íntima.

Mais do que um grande filme, Hitchcock fez um grande jogo de marketing: ele proibiu os cinemas de deixarem entrar qualquer espectador na sala de projeção depois que o filme tivesse começado. Isso, claro, aguçou a curiosidade do público, que formou filas que dobravam quarteirões para garantir o ingresso. Parecia que havia alguma coisa muito importante nos minutos iniciais do filme, e ninguém podia piscar os olhos ou um detalhe crucial (que não fosse a habitual passagem do diretor em frente à câmera) seria perdido.

E olhe que o orçamento de “Psicose” se aproximava da quantia gasta em filmes B. Hitchcock usou a equipe de sua série de televisão e optou pelo preto e branco porque acreditava que a cena do chuveiro ficaria demasiado chocante se feita a cores. Este truque bicromático permitiu que o diretor usasse calda de chocolate no lugar de sangue cenográfico e desse bastante destaque para as gotas caindo do chuveiro e se misturando ao viscoso fluido.

Janet Leigh interpretou um papel diferente de tudo que já havia feito em sua carreira. O mesmo aconteceu com Anthony Perkins. Entretanto, Perkins ficou eternamente assombrado pelo fantasma de Norman Bates, Mas nos anos 80, com Hitchcock já sete palmos abaixo da terra, Perkins abraçou seu destino trash e reviveu Norman em três sequências, servindo inclusive como diretor em uma delas (Perkins sempre gostou de filmar e fotografar). Em 1998, seis anos depois da morte de Perkins, um remake desnecessário de Psicose foi dirigido por Gus Van Sant. Hoje, quem nos lembra semanalmente do mais assustador dos filhinhos de mamãe é a série Bates Motel. Há méritos em todas estas obras derivadas. Mas nenhuma superará a original.

Dica: “Psicose” (1960) é a atração de 31 de janeiro, 1 e 4 de fevereiro nas salas Cinemark

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