Cobain montage of heck
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“Cobain: Montage of Heck” é um sensível raio X sobre o líder do Nirvana

Documentários sobre roqueiros costumam seguir o mesmo padrão: entrevistas com família, amigos, colegas de banda e eventualmente algum especialista no gênero ou no artista. São selecionadas algumas imagens que arquivo para ilustrar, com sorte temos uma ou outra raridade, as principais músicas como trilha sonora, ah, sim, e um narrador, muitas vezes um famoso que é admirador do artista. Mas no caso de Kurt Cobain foi diferente. “Cobain: Montage of Heck” (Idem, EUA/2015) até conta com esses elementos tradicionais de uma bio, mas vai além. O diretor Brett Morgen teve acesso a todo o material do vocalista do Nirvana guardado pela mãe e pela viúva Courtney Love. Com as relíquias em mão, Morgen construiu um belo retrato do que foi o ídolo, sem enaltecer ou atacar, o que torna a imersão mais verdadeira.

O primeiro ato do filme exibe filmagens caseiras da infância de Kurt em Aberdeen, cidade do estado de Washington, próxima a Seattle. Nessa primeira parte a história tem os depoimentos da mãe como fio condutor, mais adiante, ainda se tratando da infância e da pré-adolescência também há depoimentos do pai e da madrasta. A adolescência é narrada de forma tocante por uma gravação em áudio de Kurt e ilustrada com um brilhante trabalho de animação do holandês Hisko Hulsing. O trabalho do animador aparece em outros pontos do documentário, e pode-se dizer que é uma das melhores coisas do filme. As animações em cima dos desenhos de Kurt (ele era um desenhista nato) também são um acertado recurso artístico, que, junto com as cartas, bilhetes e rascunhos de letras de música, só nos fazem sentir abraçados pela sensibilidade e ao mesmo tempo tormenta que dominavam o universo do artista.

Quando o documentário adentra a fase Nirvana, Krist Novoselic assume o protagonismo e seus depoimentos passam a conduzir a história. Ali são vistas imagens de arquivo, entrevistas para MTV, bastidores, shows, muita coisa inédita, rara, inclusive a cusparada na câmera da Globo no Hollywood Rock de 93 no Rio de Janeiro está lá. Já quando o documentário aborda a intimidade do astro e sua faceta pai de família, é Courtney Love que entra em cena para narrar os fatos ao entrevistador. Com vídeos da intimidade do casal e da filha jamais vistos até agora.

O diretor explica na entrevista à revista inglesa NME, exibida logo após o filme, que se inspirou em The Wall do Pink Floyd, com as sequências de animação de Gerald Scarfe, e quis fazer uso do recurso em “Montage of Heck” para que fosse mais uma experiência sensorial do que um documentário tradicional. O filme pode ser perfeitamente considerado o dossiê definitivo de Kurt Cobain, tanto pela riqueza de material e a forma magistral como ela é disposta, como pela imparcialidade. O líder do Nirvana morto em 1994 não é colocado como vítima ou demônio como vimos em várias biografias ao longo desses 21 anos desde sua morte.

O que temos ali é um ser humano, o jovem amargurado pelo passado devido a sua inadequação, o artista criativo e sensível, mas também conturbado, o pai amoroso, o inimigo feroz da imprensa, o marido apaixonado. Apenas pessoas realmente próximas deram seus depoimentos, tanto que o único músico presente é Novoselic, que era seu amigo antes de formar a banda. Sua filha, Frances Bean Cobain, esteve diretamente envolvida com a produção e Courtney Love deu pleno acesso ao material, além de falar de assuntos de que ela passou todos esses anos fugindo. “Montage of Heck” é um filme imperdível e sem dúvida já configura entre os melhores documentários sobre um artista já feitos. É impossível não sair da sala de exibiçãse sentindo um pouquinho íntimo de Kurt Cobain.

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