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Conan, O Bárbaro



Robert Ervin Howard era um escritor de aventuras fantásticas com pano de fundo histórico em livros pulp fiction e dentre suas várias criações a que se eternizou foi sem dúvida o bárbaro Conan, cuja aparição se deu pela primeira vez no conto The Phoenix on the Sword de 1932. Em 1970, 34 anos após o suicídio de Howard, a Marvel comics comprou os direitos sobre o personagem e o transformou em herói dos quadrinhos. O sucesso de Conan, O Bárbaro foi tanto que a editora criou A Espada Selvagem de Conan a partir de 1974 e no final daquela década ganhou tirinha de jornal. O personagem ganhou vida na ponta do pincel de desenhistas como John Buscema, Barry Smith entre outros e uma adaptação para o cinema era fortemente cogitada. Em 1982 a febre de adaptações de HQs ainda não tinha chegado nem a um por cento dos patamares de hoje, mas o sucesso de Superman, O Filme e Superman II indicavam que o segmento poderia ser bastante lucrativo. Coube a um austríaco de nome estranho campeão de fisiculturismo dar vida e músculos ao guerreiro cimério.

Dirigido por John Millius e claramente inspirado em A Espada Selvagem, Conan O Bárbaro foi bem nas bilheterias daquele ano e Arnold Schwarzenegger se encaixou como uma luva no papel do brutamontes. Quem não achou graça foi a Mattel que já contava com uma linha de brinquedos pronta baseada no filme até que seus executivos viram as cenas de violência e nudez do filme, o que fez com que a empresa alterasse visualmente os personagens aproveitando o molde e criando He-Man (um outro sucesso). Depois de uma continuação não tão bem sucedida e de um longo período de especulações e dúvidas em relação ao futuro do personagem nas telonas, bateu-se o martelo em relação a um reboot e não uma continuação, que seria o caso de Conan Rei, que ainda contaria com Schwarzenegger no papel antes de se tornar governador da Califórnia. Ah, sim, nesse meio tempo houve ainda um medonho desenho animado e uma igualmente pífia série de TV.

Conan O Bárbaro (Conan The Barbarian, E.U.A/2011) não é uma refilmagem do filme de Millius e sim uma releitura do personagem para as telonas. Exceto pela mudança de vilões e coadjuvantes, a história permanece intacta: cimério perde os pais ainda criança e quando adulto, após se tornar ladrão, pirata e guerreiro, percorre o continente de Hibórea com o único objetivo de se vingar daqueles que chacinaram seu povo. No caminho encontra guerreiros, feitiçaria, belas mulheres, magia, bestas e toda a sorte de elementos fantásticos corriqueiros neste período fictício situado entre a destruição da Atlântida e a ascensão do império romano.

Naturalmente, em se tratando de uma nova adaptação para o cinema de uma obra que já tinha ganhado uma competente versão cinematográfica, ainda viva no imaginário coletivo, o filme causou celeuma logo nas primeiras imagens divulgadas na internet. Choveram xingamentos direcionados a Jason Momoa, porém, após a exibição da mini série Game of Thrones onde o ator se destacou no papel do também bárbaro Khal Drogo, a ira dos fãs do personagem parece ter arrefecido. De fato Momoa está bem no papel, convincente e, o mais importante procurando não tentando imitar Schwarzenegger. Apenas está um pouco verborrágico para um bárbaro, culpa do roteiro, não do ator. Uma bela interpretação é a de Ron Pearlman como Corin, pai de Conan, que ganha mais tempo em cena do que na versão de 1982. O ator nem era a primeira opção para o papel, que seria de Mickey Rourke, mas o defende com dignidade. O vilão, porém, deixa muito a desejar, com um personagem fraco nas mãos não houve muita alternativa para Stephen Lang (o Coronel de Avatar) a não ser cair na caricatura, é quando os fãs da primeira versão sentirão falta da presença intimidadora de Thulsa Doom, majestosamente interpretado pelo dono da voz de Darth Vader James Earl Jones. A mocinha Tamara (a beldade Rachel Nichols) consta como enfeite e para representar o manjado papel de moça valente, mas que no fim das contas precisa ser salva pelo herói.

O pecado do diretor  Marcus Nispel (o responsável por outros dois reboots irregulares: Massacre da Serra Elétrica e Sexta-Feira 13) foi se entregar aos apelos do cinema blockbuster contemporâneo e se preocupar em criar uma sucessão de cenas de ação com o intuito de esconder do espectador o fato de que ainda tem muito o que aprender como cineasta e a primeira lição que deveria seguir é não confundir apelo a emoções fáceis com bom entretenimento. Aqui tudo é variação do que já foi visto a exaustão, como edição frenética, sequências de combate que mais parecem tiradas de um jogo de videogame, trilha sonora genérica que dá imensas saudades do imponente tema de Basil Polidouris do filme de John Millius.

No fim das contas, apesar do bom desempenho de Momoa e do capricho na produção, sobretudo na direção de arte, esse novo Conan, O Bárbaro é um filme sem alma, e nem mesmo o sangue, nudez e cena de sexo entre Conan e Tamara (coisas que os fãs temiam que fossem limadas em prol de uma censura mais baixa e conseqüente bilheteria maior) dão vida ao produto. Estão ali de forma randômica, banal, apenas para dar a impressão de que a crueza dos quadrinhos que serviram de inspiração está mantida. O final dá uma leve deixa para uma continuação que não deve acontecer devido ao mau desempenho nas bilheterias americanas que o filme vem tendo. A cópia exibida para a imprensa foi 2D, mas meu olho clínico percebeu que não há ali o que justifique o ingresso mais caro.

[xrr rating=2/5]

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