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“Cinco Graças” promete, mas não cumpre

Cinco Graças (Mustang, 2015), dirigido pela estreante Deniz Gamze Ergüven, retrata cinco irmãs em um vilarejo na Turquia, a 1000 Km de Istambul. Elas estão entrando de férias e vivem com o tio e a avó. A liberdade com que celebram a ocasião, brincando com os meninos na praia, acaba por se espalhar como fofoca pela cidade, cujos moradores seguem preceitos religiosos rígidos e onde os casamentos ainda são arranjados conforme os interesses monetários e práticos das famílias envolvidas. A partir daí, a vida das irmãs se modifica. Elas são apartadas do mundo, devendo sair da escola, passando a usar “vestidos sem forma” e a aprender as técnicas específicas e extremamente entediantes para se tornarem futuras esposas satisfatórias.

A caçula das irmãs, Lale, protagonista e observadora da saída paulatina de cada uma das irmãs mais velhas, é a personagem mais interessante do enredo. Tem o caráter não resignado e enfrenta, da maneira que consegue, a tirania da cultura encarnada na avó e no tio. Assim, Lale desesperadamente tenta encontrar soluções que possam interromper a repetição de uma tradição que atropela a existência de suas irmãs e que, mais cedo ou mais tarde, atropelará também a sua.

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O filme se passa na Turquia, mas, por ser uma co-produção, foi inscrito para concorrer pela França ao Oscar 2016 de filme estrangeiro. Apesar de alguns momentos trágicos e de um pano de fundo sério, há diversos momentos de humor que recheiam a trama. A protagonista é extremamente carismática, o que é um ponto alto no filme.

No entanto, a narração inicial de Lale, que já indica uma ruptura próxima na vida das personagens, acaba por prometer e não cumprir. O que quero dizer com isso é que o filme é bom, mas sua falha talvez seja não retratar a densidade que seria de se esperar da vivência de quase cativeiro que as cinco irmãs são obrigadas a aceitar. E, para além de Lale (ou aquém), as outras personagens parecem constituir um emaranhado bidimensional de meninas, sem complexidade e indistintas, o que não chega a estragar o filme, aliás longe disso, mas que acaba fazendo com que deixe a desejar.

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Um exemplo disso é que apenas Lale parece se compadecer do sofrimento vivido pelas irmãs que estão prestes a se casar contra a vontade. Quando ocorre o casamento da irmã mais velha, Sonay, que por sorte consegue unir pragmatismo e amor, e que, portanto, está feliz e satisfeita, parece que ela não é capaz de se incomodar com o sofrimento da segunda irmã, que está casando com alguém por quem não sente nada (e cuja indiferença parece ser recíproca por parte do noivo). Não parece haver nenhum conflito de sentimentos em Sonay, linda e ruiva, nem mesmo algo próximo a uma leve culpa por estar tendo um destino melhor do que o da irmã. É nesse sentido que as outras personagens acabam se tornando um emaranhado sem complexidade, o que poderia ser melhor aproveitado para tornar a trama mais convincente da perspectiva psicológica.

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