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Crítica: “Grandes Olhos” diverte mesmo não sendo uma obra prima de Tim Burton

O diretor Tim Burton conseguiu, durante sua carreira, criar um estilo único e facilmente identificável para os fãs do cinema, algo raro nos realizadores que existem no mercado atual. Sua predileção pelo bizarro, por imagens que parecem sair de sonhos e por personagens desajustados (e até mesmo mórbidos) que, ainda assim, conseguem despertar uma empatia no público em geral são algumas de suas características mais nítidas em sua filmografia. Seja ao realizar blockbusters como os dois “Batman” (de 1989 e 1992), “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (2005), ou mesmo em seus trabalhos mais autorais, como “Edward Mãos de Tesoura” (1990), “Ed Wood” (1994), “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas” (2003) e até a animação “A Noiva Cadáver” (2005), a marca de Burton está presente, para o deleite de seus fãs. É uma pena que, desde “Alice no País das Maravilhas” (2010), o diretor tenha perdido um pouco de sua magia e ainda não a encontrou por completo. Mesmo assim, ele continua tentando recuperar seu poder de encantar como um cineasta, mesmo numa trama “normal” como seu mais recente projeto, “Grandes Olhos” (Big Eyes, 2014).

Crítica:

Inspirada em fatos reais, a trama retrata a vida de Margaret Ulbrich (Amy Adams) que, nos anos de 1950, decide abandonar o marido após o fracasso de seu casamento e tenta criar, sozinha, a filha Jane (Delayney Raye, quando criança e Madeleine Arthur, na fase adulta) em San Francisco, onde conta apenas com o apoio da amiga DeeAnn (Krysten Ritter). Além de enfrentar o preconceito por ser separada, Margaret tem que lidar com a dificuldade para arranjar um bom emprego só por ser mulher. Usando seus conhecimentos em pintura que adquiriu após estudar num instituto de artes para conseguir um dinheiro extra, ela decide vender quadros que fez da filha, onde se destacam os olhos enormes e desproporcionais ao rosto, numa feira local. Lá, ela conhece Walter Keane (Christoph Waltz), que a corteja e logo, os dois engatam um romance. Apaixonada, Margaret não resiste ao pedido de casamento de Walter e passa a assinar suas obras com o sobrenome de seu marido. Obstinado em ser reconhecido como artista, ele tenta (sem sucesso) comercializar seus quadros em galerias de arte e consegue convencer o dono de um clube de jazz a fazer uma exposição com seus trabalhos e da esposa. Após um episódio inusitado, Keane chama a atenção do jornalista Dick Nolan (Danny Huston) e, graças a um texto do repórter, as pinturas de Margaret começam a vender e ficar cada vez mais populares. Só que Walter resolve dizer a todos que ele é o criador das obras, levando todo o crédito (e boa parte do dinheiro) por isso. Assim, o casal fica rico da noite para o dia, mas enquanto Walter colhe os louros do sucesso, Margaret acaba escondida pelo marido dentro do estúdio montado em casa, pintando dia e noite, cada vez mais à sombra do marido, por acreditar (segundo a moral da época) que o esposo estava com a razão.

Crítica:

Apesar de, superficialmente, “Grandes Olhos” não se parecer um filme típico de Tim Burton por ser uma obra mais dramática e passada num universo mais realista do que ele geralmente trabalha, há elementos que se conectam, sim à sua filmografia. Como a primeira cena, com as casinhas de subúrbio americano, que remetem imediatamente a “Edward Mãos de Tesoura”, ou em duas sequências em que Margaret, cansada e frustrada por não ser reconhecida como autora das pinturas, começa a ver todas as pessoas (inclusive ela mesma) com os mesmos olhos enormes de seus quadros. Mas o diretor parece querer mostrar que não é só ligado em coisas excêntricas e, por isso, tentou fazer seu filme de uma maneira mais “tradicional”. O problema é que o resultado final seja um pouco irregular, já que ele carrega no drama em alguns momentos para, logo em seguida, adotar uma carga mais leve, que chega até à comédia rasgada, especialmente na parte final do filme. Uma das razões dos problemas apresentados está no roteiro da dupla Scott Alexander e Larry Karaszewski, que já tinham trabalhado com Burton em seu melhor filme até agora, “Ed Wood”, e também foram responsáveis pelo ótimo texto de “O Povo Contra Larry Flynt”. Desta vez, os dois não conseguiram um equilíbrio mais cativante do que tinham conseguido nas duas produções citadas anteriormente. Além disso, alguns personagens, como DeeAnn ou Dick Nolan, não são bem trabalhados e entram e saem da história sem cerimônia, o que se torna uma falha que não deveria acontecer.

Crítica:

Felizmente, Burton foi bem sucedido em entregar seu casal de protagonista a ótimos atores. Amy Adams faz sua Margaret com candura e inocência de forma exemplar e desenvolve bem o amadurecimento de sua personagem à medida que percebe que seu marido não é exatamente o príncipe encantado que imaginava. Seu esforço acabou sendo reconhecido pelo Globo de Ouro, que lhe deu o prêmio de Melhor Atriz de Musical ou Comédia deste ano. Christoph Waltz, embora carregue nas tintas em alguns momento dramáticos, como na cena em que discute com o crítico de arte implacável (interpretado de forma mordaz por Terence Stamp), se sai bem como o ambicioso e cara de pau Walter Keane. Com um sorriso ainda mais aberto que o de Jack Nicholson quando fez o Coringa em “Batman” (e sem maquiagem), Waltz consegue fazer rir (e muito), especialmente quando mostra o quão canalha é o falso pintor. A melhor parte é já no final do filme, que não será descrita neste texto para não estragar a surpresa. Já o resto do elenco está apenas OK, sem grandes destaques para as suas interpretações.

No fim das contas, “Grandes Olhos” não entra para a galeria de obras marcantes de Tim Burton. Porém, mesmo com o resultado imperfeito, o filme não merece ser desprezado pelo público e vale ser conferido, mesmo se você não for fã do cineasta que, ao contrário de Walter Keane, é um verdadeiro artista e sempre atiça a curiosidade quando lança um novo trabalho. Mesmo quando a inspiração parece um pouco distante. O jeito é esperar que ela volte ao diretor um dia. Mas até lá, o jeito é se divertir com um Burton menor.

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