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Crítica: “Para Sempre Alice” emociona em drama tocante sobre o Mal de Alzheimer

Imagine que, um belo dia, você esqueça uma palavra no meio de uma frase que estava dizendo durante uma conversa, ou mesmo numa apresentação. Você tenta, de todas as maneiras, lembrar o que queria dizer, mas não consegue de jeito nenhum. Mas a coisa não para por aí. Aos poucos, você não se recorda de lugares que costuma frequentar, não sabe mais como fazer coisas que eram tão corriqueiras na sua vida e tampouco reconhece pessoas de seu convívio diário. Esses são alguns dos sintomas do Mal de Alzheimer, uma doença que atinge mais de 35 milhões de pessoas no mundo inteiro, sendo 1,2 milhões só no Brasil, segundo a Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz). Apesar dos avanços da ciência, ainda não foi encontrada a cura para esse problema, que é o principal tema do belo e emocionante drama “Para Sempre Alice” (“Still Alice”).

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Logo após completar 50 anos, a especialista em Linguística Alice Howland (Julianne Moore) começa a notar que está com algumas falhas na sua memória, a ponto de, durante uma corrida pelos arredores do lugar onde mora, não saber onde está nem como chegar em casa. Após alguns exames, seu médico diagnostica que ela realmente tem o Mal de Alzheimer, embora a doença geralmente se manifeste em pessoas com mais idade. Alice não demora a contar ao marido, John (Alec Baldwin), e aos filhos Anna (Kate Bosworth), Tom (Hunter Parrish) e Lydia (Kristen Stewart) sobre o seu problema e tenta levar sua vida e carreira acadêmica da melhor maneira possível, à medida em que sua condição começa a se deteriorar gradativamente. Mas, ainda assim, luta para manter a dignidade e o que restou de si mesma, com o suporte da família.

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Inspirado no livro de mesmo nome, de Lila Genova, “Para Sempre Alice” atinge seus objetivos de comover de forma sensível em relação ao tema, embora ameace cair perigosamente no precipício do dramalhão, algo que poderia causar um distanciamento de um espectador mais exigente. Afinal, filmes de doença já se tornaram quase um subgênero tanto no cinema quanto na TV e tratar de certas questões sobre o assunto de forma a apenas arrancar lágrimas (como muitas vezes acontece) pode não causar empatia entre o público e a história que está sendo contada. Felizmente, isso não acontece, graças à boa direção de Richard Glatzer e seu companheiro West Westoreland, que também escreveram o roteiro. O comando do filme foi dividido porque Glatzer sofria de ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), que causa a perda do controle muscular durante as filmagens e acabou, lamentavelmente, morrendo no dia 11 de março deste ano, aos 63 anos, um dia antes do drama estrear no Brasil. Mesmo gravemente doente, o diretor conseguiu realizar um notável trabalho, ainda que o roteiro não seja tão brilhante quanto poderia ser.

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O filme também conta com um elenco pequeno, porém bastante competente. Alec Baldwin deixa um pouco de lado os personagens canalhas que anda fazendo e consegue dar uma certa humanidade e John Howland, um cientista que ama a mulher e a família, apesar de estar cada vez mais dedicado ao trabalho no desenrolar da trama. Kate Bosworth, acostumada a interpretar mulheres com certa frieza para mostrar força, não faz nada que impressione, mas também não prejudica a produção, embora sua Anna seja um pouco prejudicada pelo roteiro, que não se aprofunda em seus principais conflitos, já que pretende ser mãe e teme que a doença a atinja, com a descoberta de que ela pode ser transmitida geneticamente. Hunter Parrish aparece pouco na trama e serve apenas para ser mais um para ajudar Alice a enfrentar o Alzheimer. A surpresa positiva está na atuação de Kristen Stewart, que está cada vez mais decidida a deixar para trás a má impressão que deixou com suas fracas interpretações em filmes da “Saga Crepúsculo” e “Branca de Neve e o Caçador”. A atriz mostra um ótimo entrosamento com Moore e desenvolve bem com ela a relação entre mãe e filha, que começa conflituosa quando Lydia prefere uma vida profissional bem diferente do que a dos seus irmãos. o que desagrada Alice. As coisas mudam com a evolução do Alzheimer na mãe e Stewart consegue convencer na transição nada fácil que acontece na família, especialmente na cena que acaba discutindo com a protagonista quando ela descobre um segredo da filha.

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Mas o filme é, definitivamente, de Julianne Moore, que mereceu indubitavelmente o Oscar, o Globo de Ouro e demais prêmios que recebeu na temporada 2014/2015. A atriz conseguiu captar as nuances de seu complexo papel e leva o espectador a se emocionar com os esforços de sua personagem que deseja ainda ser uma pessoa com dignidade, mesmo que o destino seja cruel e implacável para ela. Há várias sequências em que ela brilha, mas vale destacar alguns momentos, como aquele em que Alice está na casa de praia da família e não consegue mais reconhecer seus cômodos, de uma hora para outra. A cena tem um desfecho realmente impactante e triste tanto para ela quanto para o público. Há também a sequência em que ela precisa fazer um discurso e se vale de uma caneta de marcar textos para ajudá-la a lembrar do que tem a dizer num congresso sobre o Mal de Alzheimer, onde mostra como é difícil a vida de quem tem essa terrível doença.

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Embora tenha um desfecho abrupto, “Para Sempre Alice” tem um saldo mais do que positivo, graças ao tema ao mesmo tempo trágico e reflexivo e, principalmente, pela estupenda atuação de sua protagonista. O filme merece ser visto pelo grande público e não deve ser esquecido ao fim da projeção. Não deixem de conferir e preparem seus lenços de papel.

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