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A delicada violência do mar, por Naomi Kawase

Naomi Kawase é uma diretora que sabe usar os momentos de silêncio como construção de narrativa. E se tornou também, nesse filme, “O segredo das águas”, mestre das grandes paisagens.

A partir da história de duas famílias vivendo em uma pequena cidade do Japão, tendo como ponto de vista central a menina adolescente de uma e o menino adolescente da outra, somos convidados a refletir sobre algumas das perguntas para as quais até hoje não obtivemos respostas.

O amor, a morte, a traição, o abandono, a insatisfação, o medo. De uma maneira bastante literal, classifico os sentimentos tocados pelas sutis mãos do filme em algumas palavras categorizantes.

Mas que bom que as minhas palavras não são capazes de descrever as sensações do filme. Significa que é um bom filme, desses que só se resolve em imagem e som e não em palavras ou explicações.

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Naomi faz parte de um grupo seleto de diretores japoneses que tem sua filmografia distribuída no mundo inteiro. Além disso, partilha de alguns outros pontos em comum com seus colegas, um deles Hirokazu Kore-Eda, no aspecto da sensibilidade, do tempo preciso da observação da câmera, e da vontade de tratar com toda a seriedade os assuntos de família e das dores da perda.

Nesse filme, a perda vem como morte e também como transição do estado de inocência para um outro, mais responsável, mais consciente.

É impossível se proteger das dores que a vida vai te trazer. O que é possível é saber como se entregar aos momentos de alegria e de vida intensa ou também aceitar a tristeza por um ponto de vista de aprendizado. Muitos filmes falam sobre isso. Esse nos mostra, delicadamente, como se estivéssemos contemplando o esmorecer de uma rosa, em todo seu encanto efêmero.

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Os dois adolescentes, interpretados por Jun Yoshinaga e Nijirô Murakami, estão ótimos em seus papéis de representar o olhar curioso, de descoberta e de frustração com aquilo que não entendem. Cada um está lidando com sua crise familiar, encontrando alento na amizade mútua e nos silêncios que compartilham. Os dois são também o contraponto a serenidade conquistada pelos outros habitantes, mais velhos, mais sábios. Eles são os únicos que parecem não se conformar com as mudanças, com aquilo que não podem impedir. São os que fazem as perguntas, mesmo sabendo que nenhuma resposta servirá.

A água aparece na forma das ondas revoltadas do mar, quase sempre presente, como imensidão, como desconhecido, como perigo. Uma memória recente de uma tragédia vivida pelo país em 2012 sonda esse filme que parece tentar cicatrizar as dores daquilo que somos obrigados a testemunhar e não temos como compreender. O menino tem medo de surfar, os segredos são contados aos pés do oceano. Despedidas e encontros e promessas de uma profunda cumplicidade são contextualizadas pelos humores das águas. O branco da espuma raivosa e o azul sereno das profundezas são duas facetas de um mesmo lugar, de um mesmo mistério da natureza.

Diretora de dois protagonistas em Cannes 2014.
Diretora de dois protagonistas em Cannes 2014.

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Publicado por Raquel Gandra

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