Era julho de 1967. Detroit estava fervilhando com agressivas tensões raciais. A expressiva população negra se revoltara com uma abordagem abusiva de policiais brancos, numa operação claramente não autorizada. Detroit estava literalmente em chamas. A diretora Kathryn Bigelow é uma especialista em fazer cinema como potência e urgência. Ganhou em 2009, um Oscar assim, através do superestimado Guerra ao Terror, mas foi com A Hora Mais Escura (seu longa sobre a sobre a caçada a Osama Bin Laden e seu melhor filme), de 2012, que chegou ao paroxismo de sua identidade. Seu cinema é moldado pelo documental como diapasão da estrutura ficcional, assim o resultado é sempre muito contundente.

Detroit em Rebelião vai do todo para se concentrar no dramático caso do Algiers Motel, onde três policiais brancos (dentre eles, uma atuação intensa de Will Poulter), torturaram física e psicologicamente um grupo de hóspedes negros, além de duas turistas brancas. Com uma enfática fotografia de Barry Ackroyd (lembra da tensão claustrofóbica de Voo United 93?), a diretora não se intimida ao recriar os extremos da violência e a angústia das vítimas, tornando a experiência quase desagradável, num bom resultado sobre o quão atual esses fatos ainda são.

Em busca dessa tal contundência, Bigelow acabou por fragmentar demais o ponto de vista para depois querer unifica-lo dramaticamente. Ou seja, pulverizou personagens-chaves e suas jornadas na narrativas acabaram se enfraquecendo (como a do música, brilhantemente interpretado por Algee Smith). Tanto que John Boyega é um protagonista lateral e pouco contextualizado. Mas conforme salientado antes, a diretora tem uma identidade forte e ela substancializa até seus possíveis defeitos numa narrativa.

Detroit em Rebelião tem a força de um retrato histórico para o presente na medida do quanto consegue persuadir reflexão sobre as chagas do racismo na sociedade americana. As cenas nos créditos finais reforçam essa melancolia. Intensamente como expectador e como cidadão.