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“Dois Coelhos” torna o viciado cinema brasileiro bem mais pulsante

 

Não é por falta de astúcia que o cinema brasileiro não se firma como indústria. Aliás, a colocação dessa frase nem é tão certa, afinal, com esse filmaço chamado Dois Coelhos, a porta já está aberta e com a bandeira promissora de que sabemos fazer um bom cinema pipoca.

O chamado “cinema de ação” tem cartilhas próprias (e muitas vezes viciadas) e é sempre delicado, principalmente para uma cinematografia tão inconstante como a nossa, promover essa premissa “estética”. Tanto que exemplos vergonhosos como Federal e Segurança Nacional foram fracassos artísticos e, obviamente, de bilheteria, mesmo amparados por alguma fagulha de marketing.

Afonso Poyart é um diretor habilidoso e extremamente sagaz ao convergir uma linguagem pop e altamente gráfica (o que não é uma novidade, mas o efeito prático é bem eficiente), num roteiro engenhoso, cheio de referências aos mais batidos maneirismos americanos, mas com uma certa graça e um domínio dramático bem além da superficialidade que aquela esquizofrenia costuma gerar. E essa habilidade se estende á construção de seus personagens e talvez esteja aí, o grande mérito da produção: no meio da barulheira e da cartilha de gênero, existe alma e justificativas em seus indivíduos, ainda que, na conjunção geral da história, existam alguns furos visíveis.

A trama é bem simples: Um nerd  (Fernando Alves Pinto) articula plano para lançar em rota de colisão entre criminalidade e a corrupção de colarinho branco. De um fato tragicamente pessoal, ele quer “solucionar” uma chaga universal e cotidiana: a corrupção. Alessandra Negrini, mais linda do que nunca, injeta ambigüidade em sua anti-heroína e o elenco em geral é bem coeso.

Dois Coelhos é um dos filmes mais distintos e competentes (pelo menos, tecnicamente) que o cinema nacional já viu. Ainda mais por levar tão a sério sua função como cinema, sem mergulhar no abismo da pretensão. E Poyart nos deixou com a sensação de que existem cineastas inconformados não apenas com o seu meio social (dentro da batida premissa social de nosso cinema), mas sim com seu meio de diálogo e troca com o público. Daqui, e do mundo.

[xrr rating=4/5]

Trailer:

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