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“Dolittle” se apoia no carisma de Downey Jr. e mira apenas nos pequenos

Parecia uma vitória certa. Uma nova adaptação de Doutor Dolittle, que que teve a sua versão cinematográfica de 1967 indicada ao Oscar e a segunda um bom êxito de bilheteria tendo Eddie Murphy à frente, só que agora protagonizada por ninguém menos que o astro mais valioso de Hollywood na atualidade: Robert Downey Jr. O ator ficou eternizado como o Homem de Ferro Tony Stark na Marvel Studios, e foi mola propulsora do fenômeno pop que se tornou o MCU. “Dolittle” é seu primeiro papel depois da avalanche de emoções (e arrecadação) chamada “Vingadores: Ultimato”, então, seria o suficiente para atrair a curiosidade do público garantindo um sucesso.

Na trama, após uma tragédia pessoal, o Dr. John Dolittle (Downey Jr.) decidiu se esconder do mundo com seus amados animais com os quais possui a capacidade de se comunicar. Mas ele aceita, relutantemente, o chamado para ajudar a rainha Victoria (Jessie Buckley), que está à beira da morte no Palácio de Buckingham. Cabe a Dolittle a missão de embarcar em uma viagem com sua tripulação composta de variadas espécies e seu novo ajudante Tommy Stubbins (Harry Collett) a uma ilha misteriosa para encontrar a árvore da cura, cujo fruto é o único remédio que pode salvar a vida da monarca.

O prejuízo que está amargando não reflete uma execução desastrosa do longa, que, se está longe de ser considerado impecável, não chega a ser digno de entrar na lista dos piores do ano (sim, com certeza virá coisa muito pior). A decepção certamente veio pelo tom pueril demais que o novo Dolittle carrega, que frustrou quem esperava algo mais sagaz. O filme se apoia em um humor que dificilmente arranca risadas do público mais adulto, e em um tom aventuresco, envolto de um trabalho de CGI feito pela equipe da MPC, a mesma empresa que deu vida aos animais da versão live action de “O Rei Leão”.

Robert Downey Jr. até cumpre seu papel de utilizar seu carisma para carregar nas costas a produção (que sem a menor dúvida tinha auspícios de se converter em franquia). Ele é de fato o ponto forte, em uma atuação feérica, por vezes lembrando o Doc Brown de “De Volta Para o Futuro”, dando mais sentido ainda ao deepfake que o coloca no lugar do personagem interpretado por Christopher Lloyd. Mas daí, quando imaginamos como seria sem ele, ficam mais evidentes as fragilidades da trama, mesmo levando-se em conta que o alvo são os pequenos.

Ao contrário da versão com Eddie Murphy, que traz a história para um contexto contemporâneo, essa terceira remonta a era vitoriana da qual saiu a obra original do inglês Hugh Lofting, seguindo o viés acentuado de fábula do longa dos anos 60, apesar de não ser um musical.

Os personagens digitais também possuem certa graça e foram dublados por um elenco estelar que inclui Emma Thompson (a arara Poly), Rami Malek (o gorila Chee-Chee) e Tom Holland (o cachorro Jip). O CGI não chega a impressionar tanto como em “O Rei Leão” (a equipe B da MPC deve ter sido a que trabalhou nesse aqui, enquanto o time A focava na superprodução da Disney), mas funciona na maior parte do tempo. Uma cena aqui e ali denuncia uma falta peso dos bichos de maior porte como o urso polar e a girafa.

“Dolittle”, apesar de suas falhas, não se justifica como o grande “flop” do ano. Visto com a plena ciência de que se trata de uma sessão da tarde para o público infantil, é até possível enxergar seus méritos, entre eles um irreconhecível e surpreendente Antonio Banderas. O diretor Stephen Gaghan (de “Syriana – A Indústria do Petróleo”), que também assina o script junto com mais três roteiristas, cumpriu à risca a encomenda do estúdio. Mas a resposta do público, você sabe, nem sempre é previsível…

Cotação: *** Bom (3 estrelas de 5)

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