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“Ender’s Game – O Jogo do Exterminador” procura ser mais do que simples diversão

Com o arrasador sucesso das adaptações dos livros das sagas de “Harry Potter” e “O Senhor dos Anéis”, Hollywood tem como nova palavra de ordem encontrar qualquer publicação destinada aos jovens que possa ser transformada num blockbuster. Se ela tiver como se desdobrar em mais filmes, melhor. Às vezes, as coisas funcionam, como o recente fenômeno “Jogos Vorazes”, que se firmou como franquia milionária e também colocou em evidência tramas que lidam com o chamado “futuro distópico”, onde as coisas não aconteceram exatamente como algumas previsões mais otimistas poderiam nos fazer acreditar.  Mas, na maioria dos casos, os mais recentes projetos a chegar à telona não alcançam o público desejado (ou a crítica). É o que mais ou menos aconteceu com “Ender’s Game – O Jogo do Exterminador” (“Ender’s Game”).

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Baseado no livro mais famoso de Orson Scott Card, considerado um dos melhores exemplares de ficção científica dos últimos tempos, o filme se passa num futuro indefinido, onde a Terra foi atacada pelos Formics, uma raça alienígena cujos seres lembram insetos gigantes, e quase foi destruída, se não fosse o heroico sacrifício de Mazer Rackham (Ben Kingsley), que acabou com a ameaça.
Porém, 50 anos depois, os militares (que criaram a Federação Internacional) acreditam que os extraterrestres estão prontos para um novo confronto, que poderá ser ainda mais mortífero. Para defender o planeta, crianças super inteligentes são convocadas para fazer parte da nova frente de batalha. Mas um deles, Andrew “Ender” Wiggin (Asa Butterfield), chama a atenção do coronel Hyrum Graff (Harrison Ford), por seu raciocínio rápido e espírito de liderança, qualidades que ele não enxerga nos outros jovens. Ender é o terceiro filho da família, o que já o torna um pária para a sociedade, já que não é permitido ter mais de dois filhos por casal (algo parecido com o que acontece na China por muitos anos). Sua inteligência e sagacidade o faz ser vítima de bullying na escola e até mesmo em casa, já que seu irmão mais velho Peter (Jimmy ‘Jax’ Pinchak) foi retirado do programa por causa de seu temperamento agressivo e não perdoa o caçula ter sido aceito no seu lugar. A única pessoa que parece compreendê-lo e ter algum carinho real por ele é a irmã Valentine (Abigail Breslin).

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Enviado para uma estação espacial de treinamento chamada Escola de Combate com outros garotos, Ender passa por um rigoroso treinamento militar e, aos poucos, vai mostrando suas qualidades, especialmente nos jogos de estratégia, o que acaba despertando o fascínio de alguns colegas, como Petra Arkanian (Hailee Steinfeld) e Alai (Suraj Partha), mas também a inveja de Bonzo Madrid (Moises Arias), que se sente ameaçado pelo novato e acha que ele quer lhe tirar a liderança que tem sobre os outros. Só que o que realmente incomoda Ender é a sensação de isolamento que sente por não poder se comunicar com ninguém do mundo exterior, especialmente Valentine. Além disso, algo que ele não consegue compreender está tentando estabelecer contato em sua mente e pode ser decisivo na conclusão de seu treinamento e na batalha que está por enfrentar.

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O que torna “Ender’s Game – O Jogo do Exterminador” um filme minimamente interessante está nas questões que ele levanta, ainda que disfarçadas pelas cenas de ação e ficção científica que foram feitas para atrair os adolescentes (público-alvo da produção), como o militarismo exacerbado numa sociedade bélica, que não reconhece o indivíduo se ele quer ser um simples civil (algo, aliás, também apontado em “Tropas Estelares”, de Paul Verhoeven, ainda que de maneira mais satírica, em 1997), além da ética sobre vencer a qualquer custo, mesmo que isso signifique tornar jovens em máquinas de matar sem se preocupar em conhecer as razões do inimigo.
É uma pena que um universo tão rico para reflexões acabe gerando um filme que fica no meio termo, sem se tornar marcante para quem o assiste. Um dos possíveis motivos para isso talvez seja a direção pouco inspirada de Gavin Hood (que também assina o roteiro). O cineasta, que ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2005 por “Infância Roubada”, ficou mais conhecido ao dirigir “X-Men Origens: Wolverine”, que causou controvérsia entre os fãs do mutante mais conhecido da Marvel, não mostra muita energia para conduzir uma adaptação que, nas mãos de um Alfonso Cuarón, por exemplo, daria um filme bem mais empolgante, tanto na questão do texto, quanto na direção dos atores e nas cenas ambientadas no espaço. É só ver o que ele fez em “Gravidade” para perceber a (grande) diferença.

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Outro problema do filme está em parte no seu elenco. Harrison Ford, de volta à ficção científica, parece aborrecido em seu papel como o coronel Graff, embora tente dar alguma humanidade ao seu personagem, especialmente quando demonstra algum afeto por Ender. Mas no geral, o que fica na mente é a sua cara de tédio. Ben Kingsley é desperdiçado e explora pouco a questão do heroísmo controverso dos seus atos. Viola Davis faz um trabalho decente como a major Gwen Anderson, que entra em conflito com Graff por não querer transformar um menino como Ender num militar insensível como os outros e se preocupa com os sentimentos do jovem. Já Hailee Steinfeld e Abigail Breslin têm pouco a fazer com seus personagens igualmente pouco interessantes. Porém, Asa Butterfield se revela uma escolha acertada para viver o protagonista. Revelado em filmes como “O Menino do Pijama Listrado” e “A Invenção de Hugo Cabret”, o ator dá o peso certo para interpretar o jovem extremamente inteligente, mas que tem um pouco de melancolia em seu coração por não ter muitas alegrias em sua vida, resumida em táticas de guerra e violência.

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Com bons efeitos especiais e uma fotografia  interessante, “Ender’s Game – O Jogo do Exterminador” termina em aberto, com a ideia de que poderia surgir uma continuação. Porém, como o filme não fez um grande sucesso (dizem que é por causa de um boicote ao seu criador, Orson Scott Card, conhecido por suas declarações contra os homossexuais), uma sequência pode nunca acontecer. Uma pena, pois ainda há muito a ser explorado no universo de Ender. Bastaria apenas encontrar as pessoas certas para um melhor desenvolvimento de algo que poderia ser bem mais instigante.

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Publicado por Célio Silva

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