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“Era uma Vez um Sonho” desperdiça oportunidades e se afunda em cafonice

Em mais de noventa anos de história, o Oscar acumulou polêmicas, emoções, injustiças e muitas estatísticas interessantes. Talvez mais interessantes que os maiores vencedores do Oscar sejam os maiores perdedores, ou seja, os artistas que foram mais vezes indicados e não receberam a cobiçada estatueta. As duas maiores “perdedoras” do Oscar ainda em atividade em Hollywood são Glenn Close, com sete indicações, e Amy Adams, com seis. As duas se encontram em Era uma Vez um Sonho, um Oscar bait genérico e pretensamente inspirador, mas que não escapa de uma imensa cafonice.

Era uma Vez um Sonho é um projeto autobiográfico que teve origem no livro de memórias do advogado JD Vance. Como narrador do filme, JD começa e termina tangenciando uma análise crítica do sonho americano que nunca se concretiza, pois a opção feita por ele é focar na importância da família, por mais imperfeita que esta seja, pois a família sempre estará lá para você – pelo menos a família Vance. Um filme que tinha potencial para ser como Foi Apenas um Sonho (2008) preferiu ir pelo caminho mais fácil, e também mais confuso, para exaltar os laços de sangue.

Ficamos oscilando entre dois tempos: 1997 e 2011. Em 1997, JD (Owen Asztalos) é um adolescente. Ele diz que seus avós – e sua família como um todo – não alcançaram a felicidade. Era como se faltasse alguma coisa. Talvez esperança, ele diz, antes de haver uma passagem de tempo de 14 anos. Em 2011, JD (agora interpretado por Gabriel Basso) é um estudante de direito da prestigiada Universidade de Yale, ansioso para conseguir uma entrevista de emprego em uma grande firma.

No jantar que antecede a entrevista de emprego, ao falar sobre a origem de sua família, JD percebe que os demais presentes à mesa não estão interessados, e eles chegam a comentar sobre a origem “caipira” do jovem com desdém. Logo ele recebe uma ligação, e descobre que precisa voltar para casa para cuidar da mãe, Beverly (Amy Adams), que teve uma overdose de heroína. O vício de Beverly começou como um vício em remédios controlados quando ela trabalhava no centro de diálise de um hospital. Nessa época, da adolescência de JD, há ainda grandes conflitos entre Beverly e a mãe (Glenn Close) por conta do garoto.

Nesse vaivém entre 1997 e 2011, entre adolescência e idade adulta, o filme não decide qual rumo tomar. Era uma Vez um Sonho poderia ser um tipo de road movie focado na dificuldade de JD de encontrar um lugar para a mãe ficar enquanto corre contra o relógio para voltar para a universidade a tempo da entrevista de emprego. Poderia também se ancorar só em flashbacks e assim mostrar como JD rememora e ressignifica seu passado e a história da mãe. Mas o filme escolhe fazer os dois, e acaba não fazendo nenhum com qualidade.

Os papéis de Amy Adams e Glenn Close são clássicos “Oscar baits” ou iscas de Oscar: ambos exigiram mudanças drásticas de visual – como o papel que garantiu o Oscar a Gary Oldman em O Destino de uma Nação. O papel de Amy, além disso, é o de uma viciada, um tipo de performance que exige do artista e por isso também é muito apreciado pela Academia. O Oscar não tem vergonha de premiar atrizes e atores por filmes medíocres ou pelo conjunto da obra, então, apesar dos muitos pesares, é provável que Era uma Vez um Sonho figure na próxima temporada de premiações.

Com relação a estas atuações, os momentos pequenos, menos histéricos, são os mais tocantes, como quando JD adolescente encontra a mãe chorando na cama e ela apenas lhe estende a mão, tremendo. A imagem reverbera em JD anos depois do acontecido, e também reverbera em nós após o final do filme muito mais do que qualquer cena com Amy gritando.

Embora a mensagem do filme seja interessante – não escolhemos de onde viemos e somos sim influenciados por nossas raízes, mas todos os dias escolhemos quem queremos nos tornar – todo o caminho percorrido para chegar a esta mensagem é tortuoso, mais tortuoso que o caminho que um carro percorre nos créditos iniciais. O título original de Era uma Vez um Sonho é “Hillbilly Elegy”, ou uma elegia aos caipiras. Através de um retrato nada lisonjeiro destes caipiras, o livro e o filme jogaram luz num mundo de baixaria, mas onde os laços de família valem mais do que tudo. Quem iria querer fazer parte deste mundo? Eu certamente não. Assistir a este mundo já foi sacrifício suficiente.

Nota: Péssimo (1,5 de 5 estrelas)

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