Festival do Rio 2023 – ‘Perfect Days’ é Wim Wenders de volta à boa forma

Uma excelente notícia para os fãs de Wim Wenders. Seu novo filme, “Perfect Days”, é a sua volta à boa forma. Depois de um período irregular, podemos enxergar nesse aqui aquele olhar bastante único que encantou o mundo com Asas do Desejo. E já se aproximando dos oitenta anos de idade ele ganha esse sopro…


Uma excelente notícia para os fãs de Wim Wenders. Seu novo filme, “Perfect Days”, é a sua volta à boa forma. Depois de um período irregular, podemos enxergar nesse aqui aquele olhar bastante único que encantou o mundo com Asas do Desejo. E já se aproximando dos oitenta anos de idade ele ganha esse sopro de vigor com uma obra potente, ao mesmo tempo que minimalista, extraída de seu mergulho na cultura japonesa.

Hirayama trabalha como limpador de banheiros em Tóquio. Aparentemente está satisfeito com sua vida simples seguindo uma rotina sistemática. Seu dia a dia é estruturado e o tempo livre é dedicado à paixão pela música e pelos livros. Hirayama também gosta de árvores e as fotografa. Mais do seu passado é gradualmente revelado através de uma série de encontros inesperados.

O diretor alemão vai ao longo da trama imergindo o espectador no universo idiossincrático criado por ele, com o adorno da belíssima fotografia, que exibe tons que remetem imediatamente a “Asas do Desejo”. Aos poucos vamos criando uma forte empatia com a rotina metódica, de Hirayama, seu (bom) gosto musical, com forte apreço pelo rock clássico (o título homônimo da clássica canção de Lou Reed não é por acaso), e até seu silêncio. É um homem de pouquíssimas palavras. Mas justamente por saber que o silêncio, por mais incômodo que possa ser, vale muito mais do que palavras gratuitas ou ditas no momento equivocado.

E para dar veracidade ao personagem a escolha não poderia ter sido melhor. Tomokazu Miura (de “À Deriva em Tóquio” e “M/Other”) proporciona uma atuação naturalista, lotada de camadas sutis, algumas certamente nem mesmo pretendidas pelo cineasta, que também assina o roteiro juntamente com Takuma Takasaki. O protagonista é um homem fora de seu tempo, que vive cercado de livros, ouve música em fitas cassete e pergunta se Spotify é uma loja. Seria fácil escorregar na caricatura, e em alguns momentos isso até ocorre, mas ator e diretor não permitiram que esse fosse o tom predominante. Os personagens secundários são cativantes. O colega de Hirayama, interpretado por Tokio Emoto, exerce a função de alívio cômico, estabelecendo um contraponto ao personagem principal. É um elemento narrativo bastante corriqueiro, mas bem-vindo quando bem utilizado, como aqui. Já as personagens femininas contribuem para a potência mais dramática.

“Perfect Days” foi rodado em apenas 17 dias, 60 anos depois que o diretor japonês Yasujirô Ozu fez seu último filme, “A Rotina Tem Seu Encanto” (1962), em Tóquio. Wenders afirmou que “não é coincidência que o nome do nosso herói seja Hirayama”, que também é o nome do personagem principal do último filme de Ozu. O longa apenas desperdiça algumas boas oportunidades de concluir a trama de um jeito ainda mais satisfatório do que se optou. No todo poderia ser um pouco mais conciso (não precisava extrapolar as 2 horas), mas nada que ofusque os méritos apresentados. No fim, é a velha história de como se extrair beleza das coisas mais ordinárias da vida e como boa parte do que julgamos essencial na vida moderna é supérfluo. Todavia, explorado da maneira adequada, esse mote sempre renderá obras relevantes. O diretor Wim Wenders mostra que ainda tem contribuição para a sétima arte, ao contrário do que muitos já estavam afirmando.

Perfect Days

Perfect Days
7 10 0 1
Nota: 7/10 Ótimo
Nota: 7/10 Ótimo
7/10
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