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Festival do Rio: “Escritório” é um divertido deboche do capitalismo Chinês

Em 1979 Deng Xiaoping iniciou um conceito de mercado chinês e o abriu gradativamente para o capital estrangeiro, com intuito de fazer uma transição do socialismo de seu antecessor Mao Tse Tung para o capitalismo financeiro que vemos hoje. A China é a segunda maior economia do mundo e a nova locomotiva do capitalismo. Porém o modus vivendi paga um preço com o aumento de automóveis nas ruas, consumismo desenfreado e jornada de trabalho desleal. O chinês vive para o trabalho como um americano ou um japonês, justamente para a manutenção de seu novo padrão de vida impensável há alguns anos.

O cineasta Johnnie To, conhecido por filmes de gangster como ‘The Mission’, ‘Election’ e ‘Exiled’, faz uma divertida crítica à chegada massiva do capitalismo à China com o inusitado musical “Escritório” (Hua Li Shang Ban Zu, China/Taiwan, 2015). Inusitado pois se passa praticamente todo em uma grande empresa e os demais cenários (o filme é todo feito em estúdio) não diferem muito do conceito visual do escritório do título. É uma adaptação de Sylvia Chang do sucesso nos palcos chineses de autoria da própria escritora e atriz, e se difere totalmente da filmografia de To.

Em meio à crise global de 2008 o terceiro grande baque do sistema capitalista após a crise de 1929 e a crise do petróleo em 1973, Winnie (Sylvia Chang), uma alta executiva que lembra a personagem de Meryl Streep em “O Diabo Veste Prada”, abre o capital da empresa para o mercado de ações visando uma gorda fatia prometida pelo presidente da companhia, Ho Chung-ping (Chow Yun Fat). A trama de poder e intriga, que também envolve o CEO David (Eason Chan) e a gerente financeira Sophie (Tang Wei) é mostrada pelo ponto de vista do jovem trabalhador Li Xiang (Wang Liyi), que se apaixona pela trainee Kat (Long Yueting), que esconde um segredo relativo à sua origem.

office2Os números musicais claramente inspirados em filmes americanos do gênero produzidos nos anos 60 falam invariavelmente sobre a opressão do trabalho estabelecida no capitalismo, fazem crítica ao modo de produção das empresas, à meritocracia e à corrupção no alto escalão. São números divertidos e bem inseridos, não se trata de um filme inteiramente cantado, nem com músicas que surgem sem qualquer contexto. Mas com uma acidez que o separa de um musical feel good movie como “A Noviça Rebelde”.

Também chama atenção a direção de arte com cenários delineados por formas geométricas, uso de led e a constante presença de grandes relógios. No centro do escritório há um relógio gigante com ponteiros e a engrenagem exposta, em uma clara analogia ao trabalho incessante. Com isso, explicita-se ainda mais o ambiente frio e burocrático de uma grande companhia.

office3As atuações parecem propositalmente caricatas, como um cartum vivo, com destaque para um Chow Youn Fat garbosamente canastrão.

“Escritório” é um filme imperdível não apenas pelo exotismo de ser um musical asiático, mas por sua bem humorada e mordaz crítica ao modelo hierárquico verticalizado do modo de produção moderno que já era alvo de questionamento quando Fritz Lang realizou Metropolis

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