Festival do Rio: “Quase Memória” e a propriedade Ruy Guerra

Era muito aguardado esse retorno ao cinema de Ruy Guerra com sua adaptação da obra de Carlos Heitor Cony, Quase Memória. É a expectativa se confirmou com um filme que prima exatamente pela estética de Guerra de filmar, desde os tempos de Os Fuzis.

A história versa sobre uma espécie de confronto entre um indivíduo e sua versão mais velha (com Tony Ramos em absoluta grande performance), num ensaio estilizado por um realismo fantástico barroco sobre a memória e o que isso agrega como identidade. Carlos Jovem (Charles Fricks) recebe um pacote, uma situação rotineira para um jornalista. Mas o pacote soa diferente.

O nó que amarra o embrulho, o cheiro, a letra no envelope: só poderia ter sido enviado por seu pai, Ernesto (João Miguel), morto há anos. Um pai que sempre criou situações inusitadas – como essa. Abrir ou não essa surpreendente remessa? Enquanto decide, Carlos reconstrói suas divertidas memórias ao lado desse pai genialmente louco enquanto conversa com ele mesmo em outra fase da vida: Carlos Velho (Tony).

A marca forte de Ruy está lá (as marcações de luz particulares e os estéticos enquadramentos de câmera, dizem muito sobre isso), e seu filme se legítima muito em cima disso (a fotografia é difícil, mas assertiva).

Por outro lado, a trama não se expande para além de sua matriz literária, o que resulta numa obra forte, mas que ao buscar o simbolismo, abrindo mão do batido realismo, encontra mesmo o (quase) artificialismo. Mesmo alcançando profundidade na metáfora que impulsiona o próprio livro. Esse paradoxo faz parte da cinematografia de Ruy e Quase Memória encontra seu defeito e sua qualidade nessa questão.

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