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Festival do Rio: Entrevista com Claire Simon

Gare du Nord é o novo filme da diretora Claire Simon que esteve no Rio durante o festival para divulgação do filme e ganhou, no festival, uma mostra de seus filmes onde o real e o documentário se cruzam, como “Geografia Humana”, “Custe o Que Custar” e “Mimi”. O Ambrosia entrevistou a cineasta francesa, que contou a preparação e a experiência de filmar na maior estação de trem da Europa.

Como surgiu a ideia do filme?

Eu gosto de fazer filmes sobre lugares. Eu acho que é uma boa forma de mostrar uma história. A principio, era uma ideia de documentário, achei que seria interessante escolher a Gare du Nord, porque é impressionante. É dentro da cidade, mas não é a cidade, é a terceira maior estação do mundo e a maior da Europa, creio que passam por ali umas setenta mil pessoas por dia, então, definitivamente, eu encontraria boas histórias ali.

Você fez alguns documentários como Human Geography, Mini, Recréations. Essa linguagem é intencionalmente impressa no filme?

Sim, no modo de movimentar a câmera.

E quem prestava depoimentos, eram atores, pessoas comuns, ou atores interpretando o que fora dito por pessoas comuns?

Eu fiquei na estação por seis meses antes de escrever, coletando os diálogos e as histórias. Assim, é uma espécie de mistura de vida real e ficção. A ideia é ter quatro personagens e conhecê-los através das pessoas que se encontram a conhecê-los através do mundo que veem e ouvem, e compreender o interior pelo exterior para entender como eles são, como o que está acontecendo por trás de suas vidas, como eles reagem ao resto do mundo. Há uma inversão aqui. Em um script, você nunca sabe das pessoas que trabalham na loja, na padaria, você nunca sabe as histórias, nunca. A ideia é construir os personagens principais a partir dos encontros que têm ali. Gare du Nord é um lugar muito bom para isso, o que é uma outra maneira, é claro, que sai muito material, docs no mundo sobre a estação, que é a estação real, as pessoas reais. Cada personagem neste local é feita por alguém que não é a si mesmos, não atores ou atrizes que estão jogando todo mundo, mas a multidão é a verdadeira multidão da estação. Há pessoas que não são atores nem atrizes ali, mas que não estão interpretando elas mesmas e sim outras pessoas reais.

Tem um cara do Nepal no estande de doces que ganha um certo destaque em determinado momento, ele também não é real, certo?

Não, na Gare du Nord, há muita rotatividade. Todo mundo, mesmo quem trabalha ali, está mudando o tempo todo. Se você vê alguém trabalhando em algum daqueles estandes em seis meses ou um ano, certamente não estará mais lá. Então eu coletei as histórias e transformei em roteiro. O cara na verdade é chinês, tentamos vários, e achamos ele, que se revelou um ator muito bom. Ele trabalha na cafeteria em frente àquele estande.

Como foi trabalhar com os “verdadeiros atores”?

Muito interessante, mas se você está atuando na Gare du Nord, com tantas pessoas reais, a atuação atinge um nível mais alto por você estar em meio àquela realidade.

Você os deixou livres para o improviso?

Não, estava tudo no roteiro, não ouve improviso, mas havia a sensação do lugar e das pessoas em volta todo tempo.

No fim das contas, quem seria o personagem principal, a estação, as pessoas que ali circulam e trabalham, ou os quatro protagonistas?

Temos que ter um personagem principal? (risos)

Para mim, é a estação (risos)

Sim, porque é realmente como se ela tivesse vida própria.

Como cineasta, quais foram as suas influências para esse filme?

Não sei muito sobre história do Cinema, mas… Short Cuts, de Robert Altman, um filme que é diferente do meu, mas é de um grande cineasta e editor, chamado Youssef Chahine. Ele fez um filme sobre uma estação nos anos 60, se chama Gare Centrale.

E alguma influência da Nouvelle Vague?

Sim, como cineasta, eu tive muita influência do movimento e na França nós não temos muito como evitar.

Claire Simon2

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