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A incrível jornada do Napoleão de Stanley Kubrick

Se há um filme não realizado que gera mais fascínio e curiosidade no mundo do cinema, é “Napoleão” de Stanley Kubrick. Mas parece que a obra arquivada do cineasta norte-americano virá à luz em breve, passados 17 anos de sua morte. A exemplo de A.I.: Inteligência Artificial, que fora conduzido por Steven Spielberg 3 anos após o falecimento de Kubrick, o ambicioso projeto Napoleão também ganhará produção póstuma, mas no formato de minissérie de TV pela HBO. A série será produzida por Cary Fukunaga, diretor de Beasts Of No Nation. Mas por que a jornada de Kubrick para viabilizar seu projeto gera tanto interesse? A resposta é simples: Só a pré-produção foi quase tão épica quanto a trama que seria contada.

Tudo começou após o sucesso de “2001: Uma Odisseia no Espaço”, quando Kubrick começou a trabalhar em cima do roteiro de um épico sobre o líder militar e posteriormente imperador francês Napoleão Bonaparte. A versão preliminar pode até ser encontrada na internet. “Napoleon” era para ser ao mesmo tempo um estudo de personagem e uma superprodução, repleta de cenas grandiosas de batalhas com milhares de figurantes. O diretor já havia experimentado dramas de guerra históricos e grandiosos, como “Glória Feita de Sangue” e um filme de orçamento inflado, “Spartacus”.

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Para escrever seu roteiro original, Kubrick embarcou em dois anos de pesquisa intensiva; com a ajuda de dezenas de assistentes e um especialista em Napoleão da Universidade de Oxford, ele acumulou um incrível material de pesquisa e pré-produção, incluindo cerca de 15.000 fotografias de locação e 17.000 slides de imagens napoleônica. O longa teria 180 minutos (3 horas de duração) e a estrutura narrativa seria similar a “Barry Lyndon” (filme que lançaria em 1975), alinhavando uma história de ascensão e queda, e teria narração tanto em primeira pessoa pelo protagonista como por um narrador não-personagem.

A ideia era filmar as cenas de locação na França e as de estúdio no Reino Unido.  A pré-produção seguiu os ditames de rigor perfeccionista do cineasta. Nenhuma lacuna foi deixada na busca quase obsessiva de Kubrick para descobrir cada pedaço da história informação teve de oferecer cerca de Napoleão. De acordo com Eva-Maria Magel, “O material deixado por Kubrick é possivelmente o maior de todos os arquivos privados sobre Napoleão … [compreendendo] uma gama de material, incluindo testamentos de cunho político, as memórias de aliados e adversários, estudos acadêmicos e histórias populares. Chegando ao número aproximado de 500 volumes … ”

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O diretor também pretendia filmar as cenas de batalha na Romênia e contaria com o apoio do exército romeno; oficiais superiores do exército haviam prometido 40.000 soldados e 10.000 cavaleiros a Kubrick para as cenas de batalha. Em uma conversa com o British Film Institute, o cunhado de Kubrick, Jan Harlan, afirmou que, no momento, o filme estava pronto para entrar na fase de produção e David Hemmings, que acabara de fazer “Blow Up”, de Michelangello Antonioni, era o nome mais cotado para interpretar a personagem de Napoleão, enquanto Audrey Hepburn era a sua preferência para o principal papel feminino Josephine de Beauharnais, a primeira mulher de Napoleão. Contudo, havia uma certa preocupação se a consagrada atriz aceitaria participar de algumas das muitas cenas de nudez e sexo que constavam no script.

Audrey Hepburn em 1969 - nome mais cotado para o principal papel feminino
Audrey Hepburn em 1969 – nome mais cotado para o principal papel feminino

Jack Nicholson também fora seriamente considerado para o papel depois que Kubrick assistiu a Easy Rider (ele trabalharia com o ator em “O Iluminado” em 1980). Oskar Werner,Al Pacino, e, brevemente, Ian Holm também foram nomes cogitados. Peter O’Toole, Alec Guiness, Richard Burton, e Jean-Paul Belmondo eram nomes especulados para outros papéis. A ideia do diretor era lançar o filme em 1969, no bicentenário de nascimento de Napoleão.

Um dos testes de figurino
Um dos testes de figurino

Nas notas que Kubrick escreveu para seus apoiadores financeiros, conservados no livro Os Arquivos de Kubrick, o cineasta expressa relativa incerteza em relação ao progresso do filme e do produto final. No entanto, ele também afirma que esperava criar “o maior filme já feito.” Mas, infelizmente, o filme de Kubrick não estava destinado a acontecer: os estúdios de cinema, primeiro M.G.M. e depois United Artists, decidiram que tal empreitada era muito arriscada, em um momento em que épicos históricos estavam fora de moda depois dos fracassos de “Cleópatra” e “A Queda do Império Romano”. Isso sem contar que as produções que haviam sido lançadas na época e tinham temática semelhante, como “Guerra e Paz”, de 1968, e “Waterloo”, de 1970, haviam naufragado terrivelmente.

Os arquivos de base para a produção, resultado do trabalho de pesquisa de Kubrick
Os arquivos de base para a produção, resultado do trabalho de pesquisa de Kubrick

Kubrick acabou realizando a adaptação do livro de Anthony Burgess, “Laranja Mecânica” e, seis anos depois, “Barry Lyndon”, um épico passado no século XVIII, em menores proporções do que seria “Napoleon”, mas que se beneficiou muito das pesquisas de época realizadas para a engavetada superprodução.

Steven Spielberg em 2013 anunciou sua intenção de levar o projeto sob a forma de minissérie. Fukunaga, que está cotado também para assumir a direção, está tendo acesso ao arquivo com todo o material de pesquisa realizado por Kubrick  disponibilizado pela família. A data de estreia ainda não está confirmada, mas sem dúvida será um alento para os fãs do cineasta que finalmente verão sua obra não concluída mais famosa ganhando vida.

 

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