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"Isolados" e o problema do texto pelo contexto

Antes tarde do nunca, o Cinema Brasileiro anda interessado em investir em outros gêneros para além dos que estão reiterativamente ocupando as salas desde a retomada, na década de 1990. Dentro dessa perspectiva, já tivemos boas tentativas como o drama Entre Nós, e até obras de excelência fílmica como o ótimo O Lobo Atrás da Porta. Isolados segue o raciocínio, mas pela via do suspense psicológico. Nesse caso, entre a tentativa e a efetividade do gênero existe um velho problema de nossa sétima arte: a condução de um roteiro. Dirigido por Tomas Portella (do desanimador Qualquer Gato Vira Lata), e com roteiro de Mariana Vielmond (do deprimente Giovanni Improtta), Isolados já parte de uma situação um tanto clichê: um casal – interpretado por Bruno Gagliasso e Regiane Alves – busca refúgio numa casa de campo, no meio do nada e com difícil acesso. Logo que chegam, ele descobre que está havendo um assassinato em série na mata que envolve a casa, mas insiste em ficar com a namorada. Daí, o medo e a tensão tomam conta do casal quando percebem que também podem ser alvos de uma dupla de assassinos. O que menos falar sobre a sinopse da trama, melhor. A história tem ecos em dezenas de filmes, só para citar os recentes, Ilha do Medo e Amigo Oculto. Quem conseguir identificar isso, logo matará a charada.

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O roteiro sofre de um problema seríssimo que é o da falta de solidez em sua dramaturgia. É como se os acontecimentos ocorressem de acordo com a necessidade de denotar o gênero, e não de transcorrer a história. Por exemplo, não se explica o porquê do personagem de Bruno insistir em ficar na tal casa, mesmo diante da ameaça iminente. Assim como é inconsistente a trama que envolve os verdadeiros assassinos da história. São pontos que reforçam o quanto um roteiro ainda é nosso calcanhar de Aquiles. Isso porque tecnicamente o filme funciona muito bem. Principalmente a fotografia de Gustavo Hadba que fica o tempo inteiro incindindo luz, digamos, poética, em meio ao obscurantismo de tudo. A trilha sonora também é consistente e ajuda na climatização angustiante que o diretor imprime. Aliás, Portella peca muito na condução dos atores (os arcos dramáticos são trepidantes) e no investimento nos sustos fáceis. Mesmo que não possa jamais classificar como desastrosa sua apropriação do suspense, é bem claro que Isolados ficou na beira do caminho de sua pretensão.
nota 2,5

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