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“It: Capítulo 2” assusta, mas não funciona tão bem quanto o primeiro filme

Surpreendente sucesso de 2017, “It – A Coisa” conseguiu uma proeza: agradar tanto aos fãs do escritor Stephen King (cujo volumoso livro foi a base para a adaptação para o cinema), quanto àqueles que nunca puseram os olhos em nada escrito pelo autor de clássicos do terror, como “Carrie – A Estranha”, “O Iluminado”, “Christine”, entre outros. Isso se deve à mistura bem equilibrada de drama, suspense e comédia ao mostrar a história de um grupo de meninos contra uma ameaçadora entidade que toma a forma de um palhaço para cometer assassinatos na cidade (fictícia) de Derry, no Maine (estado-natal de King e sempre cenário de suas tramas). O resultado foi tão satisfatório que o filme se tornou a maior bilheteria do gênero de todos os tempos, batendo o recorde que pertencia a nada mais, nada menos, do que “O Exorcista”, desde que foi lançado em 1973.

Uma das grandes sacadas do filme foi a percepção de seus realizadores que seria impossível colocar praticamente toda a história do livro e seus desdobramentos em pouco mais de duas horas. Por isso, o longa conseguiu desenvolver satisfatoriamente tanto a trama quanto seus personagens, além de achar o “gancho” apropriado para justificar uma continuação e criar uma expectativa pela sequência como há muito não se via para um filme de terror.

Felizmente, não demorou muito para que “It: Capítulo 2” (“It: Chapter Two”, EUA/2019) chegasse aos cinemas para satisfazer a vontade do público de saber como a saga do Clube dos Otários contra o perverso Pennywise iria terminar e se faria jus tanto ao primeiro capítulo quanto ao livro que o originou. A verdade é que, se por um lado, o filme também vai agradar aos fãs de King por fazer (boas) adaptações de momentos marcantes da história, por outro pode decepcionar por não misturar tão bem todos os seus elementos como na produção de 2017.

A trama se passa 27 anos depois que o Clube dos Otários, formado por Richie (Finn Wolfhard), Eddie (Jack Dylan Grazer), Beverly (Sophia Lillis), Ben (Jeremy Ray Taylor), Stanley (Wyatt Oleff) e Mike (Chosen Jacobs), conseguiu superar seus medos para derrotar o palhaço assassino Pennywise (Bill Skarsgård). O grupo decidiu, então, fazer um pacto de que, se a maléfica entidade voltasse a atacar em Derry, eles voltariam à cidade para enfrentá-lo novamente. Mas o tempo passou e cada um foi cuidar da sua vida em diferentes partes dos Estados Unidos e apenas Mike (agora vivido por Isaiah Mustafa) ficou em Derry, onde descobriu evidências de que Pennywise pode estar de volta. Assim, ele volta a convocar Bill (James McAvoy), Beverly (Jessica Chastain), Ritchie (Bill Hader), Eddie (James Ransone), Ben (Jay Ryan) e Stanley (Andy Bean) por acreditar que somente eles serão capazes de acabar de vez com a ameaça que toma conta da cidade. Só que eles não têm certeza se estão dispostos a encarar novamente o monstro que marcou suas vidas para sempre, nem desenterrar memórias doloridas do passado.

Mais uma vez à frente da direção, Andy Muschietti mostra que sabe conduzir momentos de terror de suspense, como no primeiro filme, assim como se sai muito bem nas sequências mais dramáticas, tanto com os atores jovens (que estão de volta em flashbacks) quanto aos que fazem as versões mais velhas de seus personagens. Só que há dois elementos que prejudicam o seu trabalho. Um é o roteiro de Gary Dauberman (o mesmo de “Annabelle”), que faz com que alguns sustos sejam “antecipados”, estragando a surpresa, por criar várias sequências que seguem a mesma dinâmica e, por isso, tornando tudo muito previsível e, de certa forma, monótono. Algo que não pode acontecer num filme cujo principal propósito (além de contar uma boa história, claro) é deixar o espectador com muito medo com o desconhecido que surge na tela.

Uma coisa que “It: Capítulo 2” deixa claro é que, por mais que o público e os fãs de uma obra (seja um livro ou mesmo uma história em quadrinhos) deseje muito que haja uma fidelidade enorme na hora de adaptá-la para outra mídia, nem sempre é possível fazê-la funcionar a contento por haver uma perda na sua transposição. É o que acontece aqui porque, por mais fiel que seja ao que a publicação de King quis mostrar em alguns momentos, as cenas não causam o mesmo resultado que obtiveram quando são lidas no livro. Por isso que o excesso de flashbacks e o epílogo propostos pelo roteiro não funcionam a contento, mesmo que possam deixar os admiradores de King muito satisfeitos. Mas um bom filme não deve ser feito pensando apenas num pequeno subgrupo, mas em todos os públicos. Algo que o primeiro capítulo conseguiu tão bem.

O outro elemento é o uso excessivo de efeitos especiais feitos por computador que dão forma às criaturas que surgem na história, além das sequências dos ataques de Pennywise. O CGI é usado de forma tão artificial e displicente que acaba tirando o peso e o impacto das cenas. Um bom exemplo disso é um momento envolvendo a personagem de Jessica Chastain (que chegou até a ser usado em um dos teasers de divulgação do filme), que começa muito bem, mas termina de forma frágil e destruindo tudo o que estava bom até então. Isso sem falar na parte final, que aliado ao espichamento do clímax, deixa tudo com uma sensação de perda de tempo, que pode deixar o espectador mais impaciente com vontade de querer que as coisas se acelerem (como se estivesse com um controle remoto nas mãos) para que tudo se acabe logo e deixem de lado aquela enrolação que não serve para muita coisa, cinematograficamente falando.

Quanto aos atores escalados para fazer os protagonistas na fase adulta, era de se esperar que James McAvoy ou Jessica Chastain se destacassem como Bill e Beverly. Mas o astro de “Fragmentado” nunca convence quando tem que mostrar a gagueira de seu personagem nos momentos de tensão, o que compromete a sua composição e a estrela de “A Hora Mais Escura” está apenas correta, assim como boa parte de seus colegas, que também têm problemas de criar um clima de amizade crível entre si, como fizeram os adolescentes no primeiro filme.Ainda assim, conseguem deixar o público ansioso e preocupado com seus destinos na história.

Quem realmente se sobressai, no entanto, é Bill Hader como Ritchie, que dá o tom certo tanto nos momentos mais cômicos, como uma metralhadora giratória de piadas e comentários ácidos, quanto nos mais dramáticos, em que deixa o personagem mais humano e faz com que o público seja complacente com seus conflitos internos. James Ransone impressiona por mimetizar os modos e trejeitos de Jack Dylan Grazer e se assemelha tanto à sua contraparte jovem que parece mesmo que é a mesma pessoa, só mais envelhecida. Já Bill Skarsgård continua eficiente como Pennywise e, graças a ele, as cenas de terror têm mais impacto, mesmo com as falhas nos efeitos especiais já descritas anteriormente.

Com pontas do próprio Stephen King e dos cineastas Xavier Dolan e Peter Bogdanovich, “It: Capítulo 2” não chega a ser o desfecho que a obra merecia, mas também está longe de ser uma tragédia. Contando com interessantes transições, a edição poderia ser mais enxuta para deixar o filme mais objetivo e, talvez, mais impactante e assustador. Pelo menos, mantém o interesse pela história e pode deixar aqueles que têm medos de palhaços ainda mais incomodados. Ainda dá para flutuar com Pennywise nesta sequência. Mas é inegável que a primeira vez foi bem mais memorável.

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Publicado por Célio Silva

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