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Kick Ass: Uma boa adaptação?

Este artigo foi escrito para funcionar como um pós-fácio ao filme de Matthew Vaughn e não deveria ser lido por quem busca assistir ao filme com suas surpresas intactas. Seu objetivo vai além de escrever uma crítica ao filme, mas principalmente compara-lo a leitura da HQ original de Mark Millar. De forma abreviada isto é um spoiler alert!

Assistir Kick Ass não foi uma experiência animadora, apesar de divertido o filme é uma versão quase idêntica, porém mais fraca de sua fonte original. Ainda que isso seja um problema comum, não é impossível encontrar boas adaptações cinematográficas no mundo de hoje.

O problema do filme de Kick Ass é, apesar de copiar quase tudo da HQ quadro a quadro, a opção do diretor por mudar alguns detalhes que na verdade acabavam por dizer muito daquela obra. A história deveria ser sobre a desconstrução do conceito de herói e como ele é completamente disfuncional para a vida contemporânea. O que vemos na tela é exatamente o contrário, onde aos poucos, por mais divertido que muitas cenas sejam, vai se construindo uma bela história com final feliz.

Acredito que dois pontos são mais marcantes para mostrar como Mathew errou a mão ao ler a obra de Millar. O primeiro deles se encontra na figura do Big Daddy. No quadrinho existe um elemento dramático que destrói a previsibilidade do personagem, mas que no filme o diretor simplesmente ignorou. Somos levados a crer que o personagem é tão somente um grande clichê, o tira honesto que teve sua família morta, mas conseguiu escapar com vida junto de sua garotinha e agora os dois juraram vingança contra o crime organizado. Ele é o Batman e o Justiceiro e um homem frio e calculista desde o assassinato de sua esposa. No quadrinho, depois que Hit Girl supostamente morre, descobrimos que tudo isso é uma grande mentira e que este personagem é uma grande piada em cima deste tipo de personagem.

Em verdade Big Daddy é igualzinho a Kick Ass, um cara nerd entediado. Um corretor de seguros que odiava sua vida mais do que tudo, e por esse motivo ele resolveu seqüestrar sua filha e criar para ela uma história de que ele era um ex-policial cujo o resto da família havia sido morto pela polícia. Veja bem, ele age em dois intuitos, primeiramente ele queria garantir que a filha vivesse com todas as coisas que sempre faltaram em sua vida, motivação, emoção, paixão e em segundo lugar ele queria tentar acreditar mesmo nessa mentira, tentando encobrir o imenso vazio que sempre o torturou.

A cena de sua execução, quando ele percebe que por causa destes sonhos juvenis, ele garantiu a própria morte e a de sua filha, coisa que ele percebe ser o verdadeiro valor da vida dele, não tem o impacto que vemos na tela. Já que apesar de carinhoso, no filme Big Daddy é realmente um justiceiro e não um nerd sonhador, e sua filha é também um soldado em sua guerra particular e não protagonista de sua fantasia juvenil.

O segundo detalhe, um grande incômodo aqui pois se trata de um triunfo do texto de  Millar é em relação ao par romântico de Dave. No filme, mais uma vez vemos a típica história do herói, que depois de empencilhos consegue alcançar todos os seus objetivos e viver feliz para sempre. No texto original, repleto de cinismo, a tática de Dave de se passar por melhor amigo Gay da menina para fica com ela, acaba resultando em um completo afastamento dos dois.

Dave acaba sozinho, traumatizado e machucado, o amor de sua vida o odeia, e deliberadamente passa humilhá-lo na frente do colégio, o chamando de freak e destruindo mais ainda sua baixa reputação.

Estes são apenas dois exemplos marcantes que ilustram a disparidade de discurso de um filme que mimetiza a violência física da HQ, mas que opta por ignorar qualquer sabor de amargues e cinismo que existia na história original. Se a HQ é sobre a desconstrução do gênero do herói, ou filme é uma re-afirmação desse arquétipo e dessa forma eles não poderiam ser mais distintos. Por isso devo afirmar que a sensação de que o filme é uma boa adaptação é falsa (o que não quer dizer que o filme seja ruim por isso vide Ghost World).

Vale dizer no entanto que nenhuma das duas obras é particularmente uma obra-prima, Kick Ass é uma HQ interessante e instigante, mas que não deve ficar muito marcada para posterioridade pois realmente não traz nada demais, já o filme, funciona perfeitamente bem como filme pipoca e deve agradar a maioria (principalmente aqueles que não leram Kick Ass) até por que em muitos momentos (principalmente com a fantástica personagem que é a Hit girl) ele é verdadeiramente engraçado e divertido de se assistir.

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16 Comentários

  1. Olha…adaptação é complicado demais, mas eu realmente não posso tocar nesse ponto, pois não li mais do que a primeira edição de Kick Ass. Mas, independente desses supostos problemas de adaptação, eu simplesmente achei o personagem do Kick Ass muito, muito fraco. Nem me pareceu deprimente, nem heróico, nem um nerd convincente ele foi (e eu já estou de saco cheia dessa coisa dos nerds no cinema e na televisão, são todos unidimensionais). Só a Hit Girl salva esse filme.

  2. Olha, se o filme fosse feito segundo os quadrinhos ng iria se empolgar tanto com ele e sim odiar. Quem quer saber se Big Dad mentiu ou se Kick Ass foi humilhado pela garota. A gente quer ver o cinismo do BD e o KA malhando a menina com gosto, pq, caso vc não saiba, cinema É diversão, embora tenhamos filmes profundos, isso nao invalida o fato de que KIck Ass TEM que ser fodaço pra dar a sensação de que estamos presenciando algo incrivel e não apenas mais um bom roteiro com reviravoltas que, mesmo sendo nerd (pois sou), só agrada que é bitolado mesmo. O filme ficou ótimo e discordo completamente de sua resenha. Ponto.

    • "e não apenas mais um bom roteiro com reviravoltas que, mesmo sendo nerd (pois sou), só agrada que é bitolado mesmo. "

      Sério mesmo? Você não quer mesmo "mais um roteiro"?
      Quase tudo o que eu quero quando vejo um filme é mais um bom roteiro, uma boa direção e bons atores… o que eu definitivamente não quero é só mais um filme de ação pipoca…

    • Entao assista aos seus tipos de filmes cara, tou defendendo meu ponto de vista, quando quero ver uma coisa pipoca eu assisto filme pipoca, se quero ver bom roteiro eu assisto Darren Aronofsky, Scorsese ou até mesmo Yôjirô Takita. Não é falta de cultura meu filho, é ponto de vista, o que nao suporto é alguem dimininuir um filme que empolga só pq ele nao é canônico.

    • Bem eu assisto, mas não preciso concordar que filme pipoca não tenha que ter roteiro elaborado. O cavaleiro das trevas é um filme pipoca com um bom roteiro assim como Homem de Ferro. De toda forma meu ponto é que se o criador da HQ original (que também como já mencionei não achei nada demais) quis contar uma história para demolir clichês de super heróis eu também estou no meu direito de me sentir insatisfeito que o filme faça justamente o contrário. Como disse na resenha, o filme é divertido, mas é raso e compromete o esforço original do autor.

  3. Assisti o filme e não li a hq, gostei muito do filme, mas depois da empolgação inicial percebi que ele tem muitos cliches e cenas legais, mas a desconstrução do herói, que era algo que já esperava realmente não foi nada marcante. O Davi falo acima de reviravoltas de roteiro e que o legal é se divertir vendo o kick ass malhando a mina, sinceramente isso por si só não basta em um filme de herois, a figura do herói está sempre distante distante dos outros que protege justamente por que faz sacrifícios, Batman cavaleiro das trevas teve mirabolantes reviravoltas de roteiro, personagens com personalidades e a morte da Rachel que foi absurda de tanta carga emocional, e na minha humilde opinião é o melhor filme de herói ever, e ele nem estava desconstruindo a imagem do herói. Por ser uma obra para cinema alguns retoques tem que ser feitos, sim, boas adaptações são isso, "adaptações" das obras originais uma releitura da visão do diretor, senão seriam "reproduções" das obras originais, o filme é realmente muito bom e continuo recomendando, Claro que para um melhor entendimento deve-se também correr atrás da HQ.

    Só complementando, não existe forma certa ou errada de enxergar determinada obra, é multiplicidade de interpretações que as tornam realmente marcantes, como foi Wacthmen, Batman the Dark Knight, O Senhor dos Anéis e o melhor filme que eu já assisti e não tem nada a ver com quadrinhos mas fala de conceitos e de heroísmo "Advogado do Diabo".

    Valeu a resenha.

  4. Achei interessante os comentários sobre a desconstrução do mito do herói e tal …
    mas o q precisa ser lembrado é que o filme não é uma adaptação total, pois o Mark Millar ainda não tinha terminado a Hq qdo Vaughn terminou o roteiro, tanto que os finais são diferentes …
    no mais boa resenha

  5. Só lembrando uma frase icônica Oneiros: Com nenhum poder, vem nenhuma responsabilidade. Por isso curti o filme, quer pensar, assista DK mesmo, é incrivel e concordo que é o melhor ever. Mas diversao tem seus limites e a linha é tênue quanto aos objetivos de um filme que faz questionamentos profundos (DK) e outro que quer só chutar o balde (KA), existem diferenças, claro, mas querer profundidade em tudo é demais.

  6. O filme pode agradar a quem foi apenas ver um filme de super-heróis, mas o Veloso disse tudo que eu pensei ao sair do cinema. Adaptação muito fraca, especialmente considerando-se o esforço que o diretor fez para manter a violência gráfica e verbal. Quem me dera ele tivesse tido o mesmo esforço para preservar a riqueza da trama.