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Mal escrito e dirigido, “Histórias Cruzadas” é um poço de humanidade

Em 1962, o diretor Robert Mulligan dirigiu um dos filmes seminais acerca de um dos temas mais espinhosos para a sociedade americana, principalmente da época: o racismo. O Sol é para Todos, que versava sobre um íntegro advogado que lutava para defender um jovem negro da acusação de ter estuprado de uma mulher branca, começava a acender um pavio que viria a marcar uma vergonha social (para os ianques) tão marcada e discutida como a herança “cultural” que os alemãos carregam pelo nazismo.

Histórias Cruzadas, tradução brazuca para o original The Help, levanta essa mesma bola, ainda que de forma menos efetiva, mas igualmente comovente. Ambientado no Mississipi dos anos 60, no auge das políticas de segragação racial – pouco antes da marcha organizada por Martin Luther King Jr., o filme é baseado num romance ficcional, homônimo, escrito por Kathryn Stockett. Dirigido – sem nenhum vigor – por Tate Taylor, acompanha a saga de uma jovem aspirante a escritora (Emma Stone, uma graça como sempre) determinada a contar os abusos raciais sofridos pelas governantas negras no Mississipi, estado sulista dos EUA. A primeira a ter coragem de romper o silêncio é Aibileen (Viola Davis, numa interpretação de fazer reverências).

Nas mãos de outro realizador, o filme poderia vir a ser um clássico como o que outrora representou o de Gregory Peck, porém é dirigido sem a menor inspiração e ainda sem nenhuma sutileza na utilização de propriedades que polarizam os antagonismos sociais representado. Tudo acaba caindo no maneirismo do branco vilão, do negro vitimizado e, novamente, do branco redentor. Por mais que essa lógica – na superfície – não seja de todo equivocada, a falta de ambição humana na construção dessa (boa) trama acaba banalizando até seu discurso.

Mas o filme tem um trunfo, quase redentor: o seu impressionante elenco. Viola Davis é uma das atrizes impressionantes que o cinema já viu. Seu olhar é tão representativo como seu corpo. Octavia Spencer, que ganhou o Oscar de Coadjuvante, também honra seu papel dignamente ao equilibrar o drama na comicidade de seu tipo. Emma, se consolidando cada vez mais como um nome em ascensão em Hollywood, é uma poço de carisma e Bruce Dallas Howard (divertida como a vilãzinha) e Jessica Chanstain (num dos melhores e mais difíceis papéis do filme) também fazem um belíssimo trabalho.

São essas qualidades de interpretação que salvam o filme do fracasso artístico total, pois ainda que seja gritantemente mal dirigido e escrito, é extremamente bem interpretado, o que quer dizer que somos tomados por uma emoção e reflexão legítimos. Dentro desse contexto, é um filme importantíssimo principalmente para a massa americana, que ainda convive com seus preconceitos velados e, muitas vezes, institucionalizados. E isso numa era Obama, democrata e em grande crise econômica. Daí o espaço para revisionismos? Pode ser, mas aí até o cretinismo da realização dessa produção acaba sendo perdoado…

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