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“Na Estrada” é inspirador como discurso, mas burocrático como cinema

A representatividade de uma obra pode ser maior do que sua qualidade. Ou as vezes nem dá para se fazer maiores avaliações de um todo quando sua dimensão para um meio ou um tempo transcende o que realmente o é. On The Road promoveu a descoberta dos Beats, pela visão (r)evolucionária de Jack Kerouac, que soube conjugar em seu tino literário a verve libertária que formava os anseios que gravitavam por sua cabeça, num mundo em gritantes transformações. São muitas variáveis para uma obra só. São muitas implicações para uma (esperadíssima) adaptação cinematográfica. E ninguém melhor do que Francis F. Coppola, e sua conhecida sanha reacionária, para topar essa empreitada. Após anos de procura por quem melhor captasse o espírito do livro, eis que o currículo “sociológico” de Walter Salles convenceu Coppola de que havia, enfim, chegado o momento de mostrar para a nova geração o pioneirismo de muito de suas idiossincrasias.

Cerca de 60 anos depois do surgimento do livro, Salles não poupou esforços em se inteirar de tudo o que envolveu a gênese e a propriedade do que ficou conhecido como “beat” – o resultado da exaustiva pesquisa, por sinal, vai se transformar em documentário a ser lançado no futuro. Ambientado nos Estados Unidos do fim dos anos 40 e do início dos anos 50, Na Estrada mostra as desventuras lisérgicas de Sal Paradise (Sam Riley), alter ego de Kerouac, que constrói uma amizade com o ex-presidiário Dean Moriaty,representado pelo carismático ator Garrett Haedlund. Juntos, atravessam a América ao lado de Marylou (Kristen Stewart), jovem pronta a assumir quaisquer riscos e experimentações, e dar sentido a palavra experiência, indo de encontro ao desejo coletivo de ganhar e entender aquele mundo.

Ao longo de sua travessia, o trio faz encontros fugazes com interessantes personagens: Viggo Mortensen dá vida a William S. Burroughs, poeta e assassino que serviu de modelo para o personagem de Bull Lee; Steve Buscemi é um homossexual enrustido travestido de conservador (em cena de sexo bem corajosa); e o jovem Tom Sturridge interpreta Carlo Marx, que reprenta o poeta da geração beat Allen Ginsberg. O roteiro de Jose Rivera, com colaboração do próprio Salles, vai permeando a eterna busca daqueles jovens por suas identidades, fragmentando a dramaturgia em blocos que se pretendem acompanhar as diversas e evolutivas fases da trama. Somos imersos no universo do jazz, dos livros, da descoberta da sexualidade e de uma profusão incandescente de percepções. Nisso, o filme procura se apropriar direitinho da “estática do livro”. O problema é que, assim como ficou claro no resultado final de Diários de Motocicleta, a dupla não conseguiu evitar que o discurso prevaleça mais do que a dramaturgia em si, tornando o filme (de certa forma) um tanto panfletário e burocrático. O que acaba se revelando um paradoxo incômodo, uma vez que acaba por não refletir a modernidade pontual do livro.

Revelando-se realmente uma façanha dificílima, a adaptação fica no meio do caminho de sua pretensão. Encanta e motiva em seu libelo a um discurso, mas entrava no veículo mais importante de seu diálogo com a sétima arte: a dramaturgia, que se embola na idealização de sua matéria prima literária. Nos resta ficar com os anseios que a obra (livro e filme) preservam intactas e assimiláveis a qualquer geração.

[xrr rating=3/5]

 

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