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“Nocaute” quase beija a lona, mas é salvo por Jake Gyllenhaal

O boxe anda um pouco deixado de lado pelo grande público, que prefere agora adular seu primo mais novo (e mais agressivo), o MMA. Mas, no cinema, ele ainda é capaz de gerar ótimas obras, em que os espectadores vibram e se emocionam com suas lutas dentro e fora do ringue. Basta ver o grande número de fãs das sagas de lutadores como Rocky Balboa (com o filme ganhador do Oscar de 1976 e suas seis continuações), Jake LaMotta (que consagrou de vez as carreiras de Robert De Niro e Martin Scorsese em “Touro Indomável”) e Maggie Fitzgerald (cuja história de “Menina de Ouro”deu o segundo Oscar das carreiras de Clint Eastwood e Hillary Swank), entre outros.

Agora, chegou a vez de Billy Hope entrar para o Hall da Fama dos grandes pugilistas da ficção, graças à monstruosa atuação de Jake Gyllenhaal em “Nocaute” (“Southpaw”), que pode realmente levá-lo à corrida pela estatueta dourada de 2016. É uma pena, no entanto, que o roteiro abuse dos clichês do gênero, dando uma incômoda impressão de déja vu e quase põe tudo a perder.

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Quando a trama começa, vemos Billy como campeão mundial em sua categoria, com um incrível cartel de 43 vitórias e nenhuma derrota. Além de bem sucedido dentro do ringue, ele também goza de uma vida invejável fora dela, com muito dinheiro em sua conta bancária, uma bela mansão, carrões na garagem, uma esposa amorosa, Maureen (Rachel McAdams), e sua filha inteligente e carinhosa, Leila (Oona Laurence).

Mas seu mundo, literalmente, cai após um inesperado incidente que custa a ele tudo o que conquistou em sua carreira e o golpe de misericórdia acontece quando Billy, falido e afastado do boxe, perde a custódia da menina e sua família desmorona de vez. Desesperado, o lutador decide recomeçar do zero e procura o veterano treinador Tick Wills (Forest Whitaker) para que o coloque em forma novamente e, no processo, consiga se redimir dos pecados do passado e se torne uma pessoa melhor, para que consiga recuperar a filha e o respeito como lutador.

Assim como boa parte dos filmes envolvendo o boxe, “Nocaute” usa o esporte como base para que o protagonista realize uma verdadeira jornada pela sua redenção e, no final, sua vitória seja avassaladora tanto dentro quanto fora da arena do combate decisivo. O problema do filme está na falta de criatividade para contar a Via Crucis de Billy Hope, já que muito do que é mostrado na produção já foi visto em outras melhores (e outras nem tanto). Por exemplo: ao ser desafiado por Miguel ‘Magic’ Escobar (Miguel Gomez) para enfrentá-lo pelo título, o roteiro de Kurt Sutter (da série “Sons of Anarchy”) chega a constranger por quase repetir, palavra por palavra, o confronto verbal e as provocações entre Rocky Balboa e Clubber Lang em “Rocky III – O Desafio Supremo”.

Além disso, o personagem de Forest Whitaker parece uma mistura de Mickey (Burgess Meredith), o mentor do Garanhão Italiano, com o Sr. Myiagi de “Karatê Kid: A Hora da Verdade”. Mas o talento do ator consegue, ainda assim, tornar Tick alguém interessante e até humano. A direção de Antoine Fuqua (de “Dia de Treinamento” e “O Protetor”) é bastante competente, especialmente para a encenação das lutas de boxe, embora uma delas mais parece que foi retirada de um vídeo game. Só que o diretor carrega um pouco demais nas cenas dramáticas, quase obtendo um resultado insatisfatório e desnecessariamente exagerado. Felizmente, Fuqua tem um ótimo elenco nas mãos, que escapa praticamente ileso dos problemas detectados no projeto.

Cada vez mais interessante como atriz, Rachel McAdams consegue uma atuação firme e até mesmo sensual como a doce e esperta Maureen, que faz o espectador acreditar no amor que sente por Billy. Basta ver o olhar apreensivo que ela mostra enquanto assiste ao marido ser brutalmente espancado durante suas lutas. O ganhador do Oscar Forest Whitaker obtém mais uma competente performance, apesar dos clichês, e convence quando precisa deixar clara a amargura que Tick sente pelos problemas que teve pela vida e os novos obstáculos que surgem à sua frente. O rapper Curtis “50 Cent” Jackson também não se sai mal como o empresário inescrupuloso Jordan Mays, notadamente inspirado no folclórico Don King, que cuidou das carreiras de lutadores como Mike Tyson e Muhammad Ali.

A grande decepção, no entanto, é o desperdício da boa atriz Naomie Harris (a nova Moneypenny dos filmes de James Bond), que pouco tem a fazer como a assistente social Angela Rivera, que cuida do caso da custódia de Billy, num papel ingrato e abaixo de seu talento. A principal surpresa é a atriz mirim Oona Laurence, que impressiona na transformação de uma criança feliz para uma menina melancólica e revoltada e realiza suas cenas (especialmente uma com o pai, onde descarrega toda a sua raiva) de maneira tocante. Parece que, se não virar uma nova Lindsay Lohan, Oona tem tudo para ser bem mais conhecida nos próximos anos.

No entanto, o grande destaque de “Nocaute” vai mesmo para Jake Gyllenhaal, que se entrega ao papel de uma maneira assombrosa. Não só na parte física, cujo corpo aparece bem musculoso e trabalhado, que impressiona quem o conhece de trabalhos anteriores, mas também pela preocupação em mostrar certas características aprofundam o lado psicológico de Billy, seja no olhar um pouco perdido e castigado depois de tantas lutas, mas que carrega uma fúria implacável, seja na inadequação social, já que não consegue esquecer sua origem sofrida e humilde mesmo com toda a riqueza que adquiriu com o boxe. O ator também emociona na dose certa quando vê que tudo está contra ele e só pode contar com sua força de vontade para recuperar o amor da filha e transformar a raiva acumulada em algo a seu favor. Se alguém tinha dúvidas do talento de Gyllenhaal, com certeza se sentirá como se tivesse levado um soco bem no queixo com o que ele foi capaz de fazer neste filme.

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“Nocaute” tinha tudo para se tornar um dos filmes mais marcantes envolvendo o mundo do boxe, mas o roteiro pouco criativo acabou sabotando as ambições de Antoine Fuqua de realizar uma obra mais relevante para a sua filmografia. No fim das contas, o que fica na memória do espectador, além das boas cenas de luta, são as ótimas atuações, especialmente de seu protagonista, que pode dar a Jake Gyllenhaal a indicação ao Oscar que muita gente acredita que ele já merecia por sua performance em “O Abutre”. Por ele, o filme acaba de pé no último assalto, mesmo que cambaleie e ameace cair em alguns momentos.

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Publicado por Célio Silva

Sou um cara que, desde que viu Flash Gordon na telona, com 7 anos de idade, sempre foi apaixonado por cinema. Também curto muito TV, música e livros. Mas é na sétima arte que sinto o maior prazer.