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“O Contador” (Crítica 2)

Ben Affleck parece mesmo ter gostado de encarnar super-heróis. Tudo começou com o famigerado “Demolidor – O Homem Sem Medo” (do qual talvez até o próprio ator quer esquecer), até se tornar o novo Homem-Morcego em “Batman vs Superman: A Origem da Justiça”. Entre as filmagens da “Liga da Justiça” e a elaboração do filme solo do cruzado de Gotham (que ele vai dirigir e estrelar), ainda em fase preliminar, chega “O Contador” (The Accountant, EUA/2016), que tem toda a construção de um filme de super-herói. Há até referências a Superman, Muhammad Ali e “Star Wars”. O filme estreia em grande circuito uma semana depois de ter sido exibido no último Festival do Rio.

Na produção dirigida por Gavin O’ Connor, Affleck é Christian Wolff, um matemático autista com muito mais talento com os números do que em lidar com pessoas. Por trás da sua função em um escritório de uma pequena cidade, ele trabalha como um contador freelance para algumas das organizações criminosas mais perigosas do mundo. Com a divisão de combate ao crime do Departamento do Tesouro, dirigida por Ray King (um surpreendentemente burocrático J.K. Simmons), começando a fechar o cerco, Wolff assume um cliente legítimo: uma empresa de robótica onde a assistente de contabilidade Dana Cummings (Anna Kendrick) descobriu uma discrepância envolvendo milhões de dólares. Mas, conforme Wolff vai ficando cada vez mais perto da verdade, o perigo para os envolvidos aumenta.

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O filme não traz absolutamente nenhuma novidade para o gênero thriller de ação. O que temos é uma trama que em alguns momentos se queda irritantemente complicada, com uma direção que não ousa em momento algum (mas é amparada por um bom trabalho de fotografia). O’Connor ainda não realizou um trabalho como diretor que realmente chamasse a atenção pelo brilhantismo, e parece não ter feito questão de que este aqui fosse um marco em sua filmografia. No verborrágico roteiro de Bill Dubuque, o personagem principal é colocado como um herói improvável, o que não deixa de ser uma premissa interessante. Porém, o excesso de inverossimilhança buscando contrapeso em uma trama rebuscada coloca o resultado final a perder.

Em alguns momentos sente-se saudades de Rambo (Sylvester Stallone), John McCLane (Bruce Willis), McQuade, o Lobo Solitário (Chuck Norris) e Casey Ryback (Steven Seagal, em “A Força em Alerta”) heróis de ação sem pretensões e sem compromisso com a intelligentsia. Assumiam-se como absurdos e ponto. Aqui, comete-se o grande erro de confundir o vício de linguagem da prolixidade com a qualidade de linguagem da inteligência e clareza. No que tange à atuação de Affleck, pode-se dizer que é um tanto esquizofrênica. Oscila durante todo o filme, entre o digno de Oscar e a caricatura. Em alguns momentos lembra Dustin Hoffman em “Rain Man”, em outros um arremedo do T-800 de “O Exterminador do Futuro”.

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Por fim, “O Contador” é um filme que  pode incomodar o espectador por pecar pelo excesso no mau sentido e decepcionar os mais exigentes que enxergarão seu caráter ordinário por baixo da aparente engenhosidade. Para Affleck, não chega a ser uma mancha na carreira, mas é um trabalho que está longe de ser memorável. A impressão que fica é que ele quis seguir os passos de seu bróder Matt Damon, bem sucedido com a série “Bourne” e ter para si uma franquia de ação. A julgar pelo bom resultado que obteve nas bilheterias dos EUA, isso não é difícil de acontecer. Mas, sinceramente, é bastante dispensável.

Leia a crítica de Alexandre Giuberti David durante a cobertura do Festival do Rio

o-contadorFilme: O Contador (The Accountant)
Direção: Gavin O’Connor
Elenco: Ben Affleck, Anna Kendrick, J.K. Simmons
Gênero: Ação
País: EUA
Ano de produção: 2016
Distribuidora: Warner Bros
Duração: 2h 10 min

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