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"O Doador de Memórias": bom contexto, fraca acepção

O escritor George Orwell podia ser um visionário, mas jamais imaginaria que seu livro, 1984, mais de 60 anos após ser publicado pela primeira vez, ainda iria reverberar e de uma forma tão constante na cultura pop do século XXI. Filmes distópicos são o que há, e, diferente de outras muitas febres absorvidas pelo ávido público teen, esses esboçam em sua natureza certa consistência discursiva, o que só comprova a relevância da percepção de Orwell. O Doador de Memórias é baseado num livro anterior as “tendências” hollywoodianas atuais (Jogos Vorazes e Divergente), escrito nos idos 1993 pela norte-americana Lois Lowry. A trama fala de uma sociedade futura totalmente controlada, em nome da harmonia social, onde não há qualquer conflito humano. Uma das formas mais eloquentes desse totalitarismo está no sacrifício da memória coletiva e das emoções. Claro que um jovem (Brenton Thwaites), ao ser escolhido como novo “guardião da memória”, descobre que o mundo sem nuances não é a única opção de vida, assim como o poder contido da revelação de suas memórias.

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O filme levanta questões interessantes e até alguma reflexão sobre o cenário geopolítico mundial hoje. Entretanto, o roteiro – de Michael Mitnick e Robert B. Weide – é um tanto burocrático ao narrar a desventura do protagonista em sua viagem de autodescoberta. O diretor Philip Noyce, que acerta ao apostar na fotografia em preto e branco para antagonizar o mundo verídico e colorido, ainda demonstra fragilidade de ritmo na sucessão de reviravoltas que tomam contam da história, na metade pro final. Trata-se de um filme com uma vilã interpretada por… Meryl Streep, como a anciã “coordenadora” do lugar, o que diria muito sobre seu resultado como um todo, mas nem a atriz pode fazer muito pelo seu papel, além do protocolar. O mesmo vale para a participação importante de Jeff Bridges, bem mal construída. O final, em aberto, já aponta para um nova franquia, sem transferir o questionamento do protagonista para a plateia. Tudo isso para dizer que, previsivelmente, talvez o “gênero” já esteja esboçando um desgaste claro. Sim, um desgaste compensado pela força da referência de Orwell lá trás, mas esvaziado pela fraqueza do presente.
nota 3

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