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O doloroso abismo do tempo em “45 Anos”

Em um de seus filmes menos estilísticos e mais pessoais, Cenas de um Casamento (1973), o diretor sueco Ingmar Bergman fez seu retrato contundente sobre as complexas fragilidades de um casamento duradouro, sob a perspectiva da desmitificação matrimonial. O denso 45 Anos me remeteu ao filme de Bergman exatamente por sua premissa iconoclasta na visão conjugal.

45 anos é o tempo em que Kate (a maravilhosa Charlotte Rampling) e Geoff (o ótimo Tom Courtenay) estão casados, e o filme, do diretor Andrew Haigh (da finada e boa série Looking), acompanha o casal nos dias que antecedem a festa em que comemorarão os muitos anos de vivência. E Kate acaba descobrindo algo do passado de seu marido que relativiza a estabilidade desse número de anos de casamento: ele recebe uma carta, dizendo que o corpo de sua ex-namorada foi encontrado na Suíça, 50 anos depois de sua queda nos alpes; e preservado. Junto de uma outra descoberta sobre o passado do marido, Kate começa a ver ruir o que pensava que conhecia de seu próprio casamento.

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O diretor narra sua trama com um intimismo que reflete as nuances que se abatem sobre essa esposa diante de um passado mais revelador que todos esses 45 anos ao lado desse marido.

Sua angústia se transforma num comovente ensaio sobre como o tempo e a intimidade podem se tornar tão obscuros num casamento. E o olhar de Charlotte, dançando com o marido, na fatídica festa de 45 anos de casamento, é de sensibilizar até os insensíveis ao universo Bergman.

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Publicação Renan de Andrade