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O domínio cinematográfico e humanístico de Paul Greengrass no ótimo “Capitão Phillips”

Lembro bem de uma tarde de 2006 em que fui ao cinema assistir “United 93″, de um dos meus cineastas favoritos, o preciso Paul Greengrass, que contava, com seu modo realista e documental, o drama vivido pelos passageiros do voo 93, dominado por terroristas do fatídico 11 de setembro de 2001. O que tornou esse dia/filme marcante foi o fato de ter me debulhado em lágrimas no fim, algo que nunca tinha acontecido num cinema até então comigo. Nunca vou esquecer daquele final, onde os passageiros conseguem dominar os terroristas mas nada podem fazer para evitar a queda do avião. Paul, em vez de focalizar o sensacionalismo do horror daquelas vidas, opta por deixar a câmera flagrar a perturbadora sensibilidade dos passageiros ligando para seus parentes para se despedirem. Tudo com um distanciamento primordial para a credibilidade do resultado.

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Em seu mais novo filme, “Capitão Phillips”, que reconta a história real (estética realista sempre encontra justificativa plena em tramas reais) do Capitão Richard Phillips (Tom Hanks, excelente) que comanda um navio mercante que é bordado por um grupo de piratas liderado por Abduwali Muse (Barkhad Abdi, onde acharam esse talento?), mas após uma tentativa frustrada de tomar o controle, o grupo foge em uma baleeira, levando Phillips como um refém para negociar um pagamento de resgate. Adaptado do livro escrito pelo próprio Phillips, o roteiro de Billy Ray (Jogos Vorazes), começa mostrando rapidamente a vida “normal” de cidadão americano de classe média do capitão, para logo jogá-lo (com toda a tripulação), em meio a tensão ininterrupta com os antagonista, que refletem bem o viés ordinário de boa parte do explorado e esquecido povo africano, de uma forma geral.

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O cineasta parte dessa premissa para documentar contradições. Contradições humanas pelas circunstâncias sociais. Contradições psíquicas pelo imponderável da sobrevivência. E isso sem qualquer filosofismo vil ou discurso político. Paul é um gênio. Suas lentes constroem seus próprios discursos. E seu interesse está em persuadir percepções e não conclusões. “Capitão Phillips” nivela isso o tempo inteiro. Seus 20 minutos finais é de uma genialidade cênica, cinematográfica e humanista tão eloquentes (com Hanks nas vísceras de seu ofício e Paul no ápice de seu domínio), que no calor da minha tensão como espectador, me perguntava como o cinema pode ser tão absurdamente verossímil?

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As lágrimas derramadas no filme lá de 2006, deram lugar a perplexidade e o fascínio de como Paul Greengrass tem facilidade em tornar a realidade uma personalidade de sua arte. Eu recomendo tanto que acho um ultraje quem ainda não tenha visto…

[xrr rating=4/5]

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