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"O Protetor 2" só se torna relevante por causa de Denzel Washington

Em toda a sua carreira, Denzel Washington nunca fez uma sequência dos filmes que se tornaram sucesso, em boa parte graças à sua magnética presença e suas performances muito acima da média. O astro americano construiu seu nome graças a um bom olho para escolher seus papéis (claro, já cometeu deslizes como estrelar os fracos “Assassino Virtual” e “Possuídos”, por exemplo) e se tornou ator confiável tanto para produções mais densas (cujo exemplo mais recente foi sua incrível atuação em “Um Limite Entre Nós”, que ele também dirigiu e quase lhe deu o seu terceiro Oscar), quanto para filmes de ação, como “Dose Dupla” e “Protegendo o Inimigo”, só para citar alguns dos mais recentes.
Portanto, não deixa de ser uma surpresa que Washington tenha escolhido justamente retomar um personagem que vinha de uma série de TV em sua primeira continuação. Assim, quatro anos depois, chega aos cinemas “O Protetor 2” (“The Equalizer 2”, 2018), que procura mostrar mais detalhes da vida do protagonista misterioso e letal, que procura ajudar pessoas ao mesmo tempo que precisa lidar com questões do passado. O filme é bem produzido, tem boas cenas de ação, mas tirando mais um bom trabalho do ator principal, não acrescenta em praticamente nada ao gênero e o resultado final não é muito diferente de diversas produções lançadas ano sim, ano também.
Na nova trama, Robert McCall (Denzel Washington) agora trabalha como motorista de aplicativo (do tipo Uber) e continua a ajudar pessoas, como o jovem vizinho Miles (Ashton Sanders), que tem problemas com a criminalidade local. Sempre discreto, Robert mantém a amizade que tem com Susan Plummer (Melissa Leo), sua ex-chefe na CIA e seu marido Brian (Bill Pullman). Só que Robert é forçado a lidar com questões do passado quando Susan é vítima de um misterioso ataque durante uma missão na Europa, colocando-o numa situação delicada, já que, para ajudar a amiga, terá que retomar a parceria que tinha com o agente Dave York (Pedro Pascal), ao mesmo tempo em que um misterioso grupo começa a agir para acabar com a sua vida. Robert, então, usará todas as suas habilidades para descobrir o que aconteceu e acabar com os criminosos.
Em sua quarta parceria com Washington, o diretor Antoine Fuqua realiza um trabalho competente, ainda que não excepcional, onde o maior destaque vai mesmo para as cenas de ação, amparadas pela montagem ágil de Conrad Bluff, que deixam (principalmente) as sequências de luta bem impactantes. Fuqua também aproveita o talento dramático de seu astro e constrói uma bem tensa cena entre ele e o jovem Ashton Sanders num momento crucial da trama. Além disso, o cineasta faz um bom uso do suspense, especialmente num momento em que um dos personagens se encontra em um ambiente bastante claustrofóbico. É uma pena, no entanto, que na sequência final do filme, durante a passagem de um furacão, não há a tensão necessária para tornar a cena mais impactante.  É bem realizada, sem dúvida, mas poderia ter rendido mais.
O principal problema de “O Protetor 2”, no entanto, está no roteiro, assinado por Richard Wenk, inspirado na série de TV criada por Michael Sloan e Richard Lindheim. O roteirista não conseguiu se livrar das armadilhas criadas pelo argumento e acabou caindo no lugar comum da história do homem que busca por vingança. Assim, clichês e mais clichês se amontoam na trama, sem nenhum pingo de originalidade. Nem mesmo as reviravoltas escapam do déja vu e quem está acostumado a ver filmes deste estilo descobre facilmente quem está por trás dos eventos que levaram o protagonista a agir contra seus inimigos, sem muita dificuldade. Isso sem falar que, ao contrário do filme original, os vilões são muito menos interessantes do que os vistos no primeiroO Protetor”. Isso facilita a percepção de adivinhar com quem o personagem de Washington tem de lidar na parte final do filme.
O elenco faz o possível para tornar “O Protetor 2” um filme melhor do que ele é. Melissa Leo, que volta ao papel que fez há quatro anos, torna Susan uma personagem simpática e bastante carismática, uma pessoa que a maioria das pessoas gostaria de ter como o ombro amigo. Já Bill Pullman, que faz seu marido, é mais uma vez desperdiçado num papel apagado que qualquer ator menos consagrado poderia fazer sem problemas. Pedro Pascal parece estar se consagrando como o braço direito de protagonistas, como os interpretados em “A Grande Muralha” e “Kingsman – O Círculo Dourado”, além da série “Narcos” e, aqui, mostra mais uma vez segurança, embora não chegue a se destacar. Quem consegue isso é Ashton Sanders. Revelado em “Moonlight – Sob a Luz do Luar”, o jovem ator revela bastante autenticidade como o conflituoso Miles, que acaba sendo uma espécie de protegido de Robert embora ainda não saiba para qual caminho seguir. Se ele for bem assessorado, deve fazer uma bela carreira no cinema.
Mas, obviamente, o filme é todo de Denzel Washington. Mais uma vez, o ator engole a tela com uma mistura bem dosada de talento e carisma, trabalhando muito bem as questões relacionadas a Robert McCall, que revelam mais sobre suas origens e suas motivações (algo que não ficou muito explicado no primeiro filme, o que deu um certo ar de mistério para o protagonista), além de impressionar nas cenas de combate, que parecem ter sido feitas por alguém com menos idade, e que ele tira de letra. Não é à toa que ele está num patamar acima de muitos atores em Hollywood.
No fim das contas, “O Protetor 2” resulta em uma sequência que fica aquém do primeiro filme, tanto na parte estética quanto na sua história, que serve apenas para marcar território para uma possível franquia que tem chances de gerar novas continuações nos próximos anos. Não há necessidade real de novos capítulos e, talvez, esse seja o seu maior pecado por não criar expectativas maiores do público. Se for feita uma terceira parte (ou mais), tudo bem. Se não for, também não tem problema. Mas com certeza, sempre será bom ver Denzel Washington em ação no cinema. E vê-lo novamente, isso sim desperta a vontade do espectador. Seja nessa série ou em qualquer outra produção.
Filme: “O Protetor 2” (The Equalizer 2)
Direção: Antoine Fuqua
Elenco: Denzel Washington, Pedro Pascal, Ashton Sanders, Bill Pullman, Melissa Leo
Gênero: Ação/Suspense
País: EUA
Ano de produção: 2018
Distribuidora: Sony Pictures
Duração: 2h 01min
Classificação: 16 anos

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