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“Os Miseráveis”: mais que lugar de fala, propriedade social

A atemporalidade do clássico revisionismo social que o escritor Victor Hugo entregou para o mundo, chamado Les Misérables, ganhou uma atualização ainda mais urgente e pungente com o filme de mesmo nome, mesmo não sendo uma adaptação da obra literária em si.

O diretor Ladj Ly faz seu primeiro longa de ficção extrapolando a noção de feridas abertas sociais, para cavucar o nervo inflamado que é a conjuntura de uma França segregada em suas periferias de complexidade étnica.

Passada no subúrbio de Montfermeil – sim o mesmo local do livro de 1862, o filme acompanha três policiais que fazem parte do que se entende como brigada anti-crime em pequenos bairros da região. Do corrupto ao novato ético, eles são um retrato da causa e consequência desse pequeno poder sob a comunidade, eclodindo intensas tensões sociais.

Ly se imbui da intensidade desse cotidiano que conhece bem (ele, filho de imigrantes, é cria da região), e conduz a história equilibrando uma precisão quase documentarista (o elenco é formado também por personagens reais) ao mesmo tempo em que lança mão de construção narrativa bem técnica para reforçar o sentimento de que a qualquer momento algo pode acontecer ali.

Essa propriedade dele faz toda a diferença até pela maneira como a história reflete o presente e o fracasso que vem de um passado. Tanto que o livro do século retrasado e o filme de 2019 falam sobre o mesmo problema, com o ônus de que socialmente, o país (o mundo!) involuiu.

Os Miseráveis testemunha, mas não dá repostas. O importante é a questão. Pode se levantar a discussão de que o diretor passou um pouco do ponto nessa sua visão. Tolice. O nome disso é excesso de propriedade, e isso quando o cinema pode usufruir, é um ganho absurdo. O filme é duro e importante. Se o cinema pode dar algum tipo de mensagem que seja pela reflexão. Assim como o livro homônimo continua fazendo.

Cotação: Extraordinário (4,5 de 5 estrelas)

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