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“Os Oito Odiados” e o peso de ser Tarantino

Os Oito Odiados representa, acima de tudo, a dor e a delícia de ser uma obra do cineasta Quentin Tarantino. E esse peso se mostra cada vez mais latente nesse seu oitavo filme, que aglutina de maneira rígida todas as suas (muitas) virtudes e os seus (costumeiros) excessos.

Após a Guerra Civil Americana, somos apresentados ao caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russell), conhecido como ‘o enforcador’. John está indo para o vilarejo de Red Rock onde entregará a criminosa Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh, magnífica) para a justiça e ficará com a recompensa de 10 mil dólares. No entanto, no caminho, encontra o misterioso Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), um ex-soldado que adora contar uma história, e também Chris Mannix (Walton Goggins), um homem que está indo assumir o posto de xerife da cidade de Red Rock. Após enfrentarem uma forte nevasca, eles buscam abrigo em uma pequena pousada no meio da estrada gélida onde uma tragédia anunciada eclodirá, inclusive com o aparecimento de novos personagens-chaves.

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Tarantino sabe como poucos, construir e relativizar seus personagens femininos, e aqui, o filme é praticamente construído em torno da figura de Daisy, numa interpretação sensacional de Leigh; mas como bem o título fala, são oito odiados (depois descobrimos que o número não é bem esse), ou seja, não existem mocinhos nessa história.

Ao desenvolver a convergência dessas personas e ainda fazer refletir (com delicioso cinismo) a America pós-Guerra civil, o roteiro, mesmo muito bem filmado, não consegue escapar de seu excesso de pretensão (algo tão Tarantino…) e as cerca de três horas de duração são sim, bem sentidas. Entretanto, é preciso dizer que o diretor não banaliza seu filme: a fotografia excepcional de Robert Richardson alcança profundidade dentro dos restritos metros quadrados da casa de madeira, onde se passa quase toda a trama, e ainda dimensiona o faroeste congelado proposto.

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Assim como o genial Ennio Morricone, que alude o Velho Oeste com composições precisas, mas numa ode ao “velho cinema”. Os Oito Odiados é uma jornada difícil, mas bem filmada de se acompanhar. E Tarantino ainda demonstra sua voltagem artística nas viradas e excentricidades narrativas que nos reserva da metade para o final, em especial na construção de sua única e adoravelmente detestável personagem feminina. Mas deve ser um fardo pesado demais ser tarimbado como gênio. É sempre um desafio tornar a alcunha perene. Pelos defeitos e qualidades apresentados, estamos até diante de um bom filme. Ainda que um tanto cansado do peso de ser Tarantino.

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