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"Quando Eu Era Vivo" procura encontrar uma voz para o terror brasileiro

No Brasil, está ficando cada vez mais raro encontrar produções que procurem fugir das soluções fáceis do mercado. Com o fortalecimento das comédias corriqueiras nos últimos anos, estreladas por humoristas que se consagraram na TV ou mesmo no teatro, a situação ficou ainda pior. Não há muitos diretores ou produtores querendo nadar contra essa corrente e lançar filmes que sejam de gêneros diferentes. Felizmente, há gente que quer se arriscar e consegue realizar bons trabalhos, como Marco Dutra que, depois de chamar a atenção da crítica especializada com o seu primeiro filme “Trabalhar Cansa” (co-dirigido por Juliana Rojas), agora lança seu novo projeto, o terror com pitadas de drama e suspense “Quando Eu Era Vivo”.

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Baseado no livro “A Arte de Produzir Efeito Sem Causa”, de Lourenço Mutarelli (o mesmo autor de “O Cheiro do Ralo”), o filme mostra a história de Júnior (Marat Descartes), um homem que, após perder o emprego e a esposa, volta para a casa do pai, Sênior (Antonio Fagundes). Ao chegar lá, ele estranha que seu antigo lar não é mais o mesmo, com uma decoração diferente e sem nenhum elemento que lembre a mãe, morta há alguns anos. Até mesmo o pai está mudado, com uma aparência mais jovial, graças a sessões de bronzeamento artificial e exercícios físicos. Além disso, os dois não estão estão sozinhos: o quarto que dividia com o irmão, Pedro (Kiko Bertholini), foi alugado pela jovem Bruna (a cantora Sandy Leah), uma estudante de Música. Júnior demonstra interesse pela inquilina, ao mesmo tempo em que tenta descobrir o que aconteceu com os pertences da mãe. Aos poucos, ele passa a desenvolver uma obsessão pelo passado, que pode desvendar um segredo terrível e alterar a vida de todos de uma maneira apavorante.

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O diretor Marco Dutra (que também co-escreveu o roteiro com Gabriela Amaral Almeida) trabalha com alguns elementos clássicos do cinema de terror e suspense, mas não procura simplesmente imitá-los. Ele tentou encontrar soluções diferentes para criar resultados que fujam do clichê que este tipo de produção costuma ter e não se rendeu à tentação de criar sustos fáceis. O que é um mérito para o filme. Dutra obteve um clima sinistro e necessário para que a proposta não caísse no ridículo. Mas, mesmo assim, é possível encontrar algumas referências de outras produções, como “O Iluminado”, por exemplo, ou usar o truque de colocar um disco que traz uma música aparentemente inocente (no caso, uma canção interpretada pela atriz Elizângela, quando era mais nova) tocada ao contrário como uma evocação de uma entidade demoníaca. Mas isso não depõe contra a ideia original da trama.

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Outro destaque de “Quando Eu Era Vivo” está na direção de arte do filme e nos pequenos detalhes da cenografia. É interessante notar a maneira que está arrumado o apartamento de Sênior, com vários aparelhos de ginástica e suplementos alimentares espalhados pela casa inicialmente e, aos poucos, com a intervenção de Júnior, o imóvel começa a ficar com uma aparência antiquada e, ao mesmo tempo, desoladora, como se a mãe dele tivesse ressuscitado e voltado a comandar o lugar. Além disso, a trilha sonora, composta por Dutra junto com Guilherme e Gustavo Garbato, também chamam a atenção para ajudar a compor o clima sinistro e soturno. As canções que se tornam essenciais para o mistério da trama são mais do que adequadas para o suspense e, por incrível que pareça, a voz de Sandy Leah é necessária para causar medo no público. Vale destacar também a edição de som, em particular nas cenas que misturam os sonhos de Júnior com a realidade.

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O diretor também foi feliz na escalação de seu elenco. Antonio Fagundes mostra porque é um dos atores mais versáteis do Brasil, compondo seu Sênior de uma forma totalmente diferente, por exemplo, de seu recente papel como o César da novela “Amor à Vida”, ao criar um homem que tenta se reencontrar após a morte da esposa, ao mesmo tempo que tenta fazer o filho se reerguer e esquecer o passado.  Marat Descartes passa bem a sensação de que algo estranho está modificando a sua mente, com uma caracterização que lembra um pouco o que Jack Nicholson fez em “O Iluminado”, tomada como referência mais óbvia, mas nem por isso com alguns elementos originais, como na cena em que a loucura o faz atacar violentamente a namorada do pai, vivida por Tuna Dwek. Já Sandy Leah não compromete com sua interpretação como a estudante Bruna. Além de mostrar sua bela voz, a cantora, conhecida com sua aura de ‘boa moça’, faz o possível para subverter essa imagem ao se mostrar um pouco mais ousada do que de costume, além de não fugir da responsabilidade de, no meio da história, se tornar uma peça importante para todo o mistério que ronda o caminho de Sênior e Júnior. Merece destaque também as atuações de Gilda Nomacce, como a manicure/vidente Miranda e Kiko Bertholini, que aparece pouco como Pedro, o irmão de Júnior, mas sua interpretação é essencial para o filme funcionar.

Apesar de algumas falhas no roteiro, como a falta de uma explicação melhor sobre como acabou o casamento de Júnior, “Quando Eu Era Vivo” é um filme que merece ser conferido porque mostra que os diretores brasileiros querem fazer produções de gênero no país. Dutra está disposto a trabalhar com o terror nos próximos anos e parece que está no caminho certo para se tornar um diferencial no nosso cinema.

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