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Rango: Um Verdadeiro Faroeste em Animação

Uma vez, em entrevista, John Lennon disse que um professor de inglês de sua antiga escola deu uma declaração dizendo que usava as letras das músicas dos Beatles em suas aulas de interpretação de texto porque elas eram fáceis de interpretar. Então, ele, que na época estava trabalhando no que viria a ser o disco Magical Mystery Tour, escreveu parte das letras totalmente influenciadas por viagens de ácido, criando três músicas que foram unidas em uma só, chamada “I am the Walrus”, para confundir a cabeça de quem quisesse interpretar. Disse ele depois: “Interprete isso agora seu %#$%@.”

Porque essa parábola pré-resenha? Porque Rango me fez lembrar essa história do começo ao fim. Parecia que eu assistia à três filmes distintos, separando claramente a introdução, desenvolvimento e conclusão do filme nas mesmas proporções nas quais John Lennon criou sua música. Uma parte era uma busca pela identidade, a outra, um clássico faroeste no estilo de Sergio Leone e por fim, um final no melhor dos esquemas animação infantil em que tudo está bem definido e amarrado, mesmo que levemente fora dos padrões das animações infantis usuais.

I am he as you are he as you are me and we are all together

Começamos tudo com o descerrar das cortinas e somos jogados dentro do que se pode chamar da mente insana de um camaleão que, além de solitário, vive uma vida de bichinho de estimação, até seu mundo ser virado de cabeça para baixo e ele ser jogado no deserto da vida. Vale reparar na homenagem dos animadores à Johnny Depp (que dubla ele no original) com alguns segundos de seu personagem em “Medo e Delírio em Las Vegas” aparecendo na cena.

Depois desta breve introdução em que vemos este camaleão tentando, através de um monólogo bem engendrado e quase sem nexo para quem não está prestando atenção aos detalhes em que vemos que ele está vivendo pelo seu isolamento e pelo fato de estar habituado aquele mundinho de plástico e vidro, acontecem fatos que o levam ao mundo real, ou na pior das medidas, o começo de uma viagem (em mais de um sentido) para ele.

Logo, o desenvolvimento da história e primeira mudança chega, quando um tatu atropelado manda ele entrar no deserto em busca de pó, antes de encontrar água devido à sede que o deserto lhe impôs. Analogias à parte com a busca pelo auto conhecimento, o filme nos leva à cidade de Dust, onde nosso camaleão sem nome adota o nome de Rango e começa a criar sua nova identidade.

Sitting in an English garden waiting for the sun

Em Dirt (Poeira), Rango agora é estrela, ainda mais nas inúmeras situações de ação criadas para desenvolver a história e dar um ritmo bom. Aqui, estamo no velho oeste. Clássicas cenas se mesclando a ação tipicamente hollywoodiana e mais precisamente, à diversão nos padrões Disney, mesmo que o filme não seja da produtora, quando ele se une à cidade em busca da àgua que irá trazer vida de volta aquelas pessoas sofridas.

As cavalgadas ao pôr-do-Sol, ao som de uma versão de “Ghost Riders in the Sky”, claro que devidamente parodiadas, afinal, estamos falando de uma animação. Os passos de Rango em busca da salvação o levam, indubtavelmente, a um caminho de crescimento pessoal de uma personalidade que não é sua, que foi criada inicialmente com uma necessidade sua e que acaba se tornando uma necessidade dos outros, as quais ele não pode abdicar. Rango então acaba se tornando um salvador, um quase messias aos necessitados de esperança.

Desgraçado em frente a seus pares, ele se vai de volta ao deserto.

I am the Walrus

Lá, ele encontra tudo o que precisa. Palavras de incentivo de um guru tatu, um pouco de delírio e ele sabe quem ser, sabe o que fazer e após ter um encontro com, bem, quase Deus, adquirindo uma identidade novamente e vai em direção a conclusão do filme.

Claro que eu evitei ao máximo dar detalhes da história e das cenas em si para não estragar o prazer dos espectadores que irão assistir o filme nos cinemas e claro que a partir de agora eu só vou falar dos detalhes técnicos porque a mão do diretor Gore Verbinski é quem faz deste um grande filme.

Primeiro, pela qualidade em todas as tomadas em que os animadores da ILM foram primorosos em criar, usando 100% de animação digital, mostrando que a barreira entre realidade e fantasia agora é apenas uma película fina que mal se pode ver. Captando as expressões corporais e faciais dos dubladores, vemos a qualidade com que os animadores puderam trabalhar em recriar cobras, lagartos, toupeiras, tartarugas e um camaleão muito simpático, apesar de estabanado, no melhor estilo Jack Sparrow.

Ainda, a trilha sonora, tanto no original quanto a criada em português, estão perfeitas e Hans Zimmer escreveu uma trilha sonora que nos remete facilmente aos mais clássicos faroestes da história e juntamente da banda Los Lobos, que canta a música tema do filme, criou uma atmosfera perfeita. Zimmer mostra mais uma vez porque é um dos compositores mais requisitados e variados da atual geração, afinal, após as belas trilhas de Cavaleiro das Trevas e A Origem, ele criou uma nova interpretação do já clássico tema dos faroestes.

A atuação dos dubladores brasileiros é excepcional, trazendo grande vida aos personagens e fazendo frente à todas vozes originais.

Rango não é uma animação infantil e o excesso de detalhismo e temas mais adultos indicam que a Nickelodeon, apesar de ser um canal infantil, criou um dos grandes candidatos ao Oscar de animação de 2012 e agora, Disney e Dreamworks terão de sambar para chegar na qualidade que Rango nos trouxe.

[xrr rating=4/5]

2 opinaram!

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  1. Olha, o filme é INCRÍVEL. A animação, o roteiro, os conceitos, são muito bons. Mas infelizmente o trailer nos vende um outro Rango. Só pelo trailer, o que parece é que o filme será engraçaralho o tempo todo. Tipo um Madagascar ou Shrek. E não é. É uma animação séria e densa. Quem entrou no cinema querendo rir, se decepcionou. Foi quase o meu caso, se eu não tivesse me encantado com TUDO que estava na tela. ;D

    Achei-o excelente!

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Publicado por J.R. Dib

GamerCinéfiloMusicólogo

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