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Senna

A primeira coisa que se tem de comentar a respeito do perfeito documentário Senna é que foram precisos 15 anos de sua morte e a desculpa de lançar o filme como uma celebração pelo que seria seu 50 aniversário para fazer um filme/documentário que realmente fizesse jus à vida e carreira do piloto. A verdade é que simplesmente foi preciso a união de uma produtora internacional (a inglesa Working Title) com a Universal e a Paramount para criar uma narrativa da carreira de 10 anos do piloto na Fórmula 1.

Não houve apoio de Ministério da Cultura ou Ancine neste fantástico projeto, apenas da iniciativa privada, constituida basicamente pelo Instituto Ayrton Senna e a FOM de Bernie Ecclestone, o chefão da parte comercial da F-1. Enquanto isso, o documentário é uma obra digna de todos os fãs do piloto brasileiro, há alguns exageros em defesa da imagem do piloto, isso é fato, mas seu lado não muito bonito também é mostrado, deixando claro que ao invés de ufanismos, vemos a imagem de alguém que lutou muito pelo que quis, não importava o que deveria ser feito.

O documentário (e não filme, como é propagandeado) mostra a carreira do piloto desde sua chegada a Europa em idos de 1978 à sua morte em 1 de maio de 1994, no circuito de Ímola, na Itália. Para os fãs, há muito material adicional, mostrando os bastidores do esporte com suas politicagens e dinheiro rolando solto, nem sempre se privilegiando o bom jogo de equipe, mas sim, a vitória de quem tem mais poder. Para quem não conhece a história do piloto por ser muito novo, é uma chance rara de entrar de cabeça na vida de um homem que simplesmente cativou um país inteiro ao se tornar tri campeão mundial.

Senna foi um homem, este é o principal ponto focado no documentário. Ele não era um deus ou um super-humano. Ele tinha fraquezas, ele errava e por diversas vezes se viu em situações ruins porque teve de lutar contra o sistema ou foi cabeça dura demais para aceitar alguns fatos da vida. Sua disputa com Prost no início de carreira mostra isso. Ele lutava contra o campeão e achava que poderia sair totalmente ileso, o que não ocorreu no fim das contas.

Em termos de experiência cinematográfica, a direção de Asif Kapadia, roteiro de Manish Pandey e produção de James Gay-Rees, Tim Bevan e Eric Fellner usam de diversas imagens de arquivo liberadas pela família e FIA para mostrar como era a pessoa Ayrton Senna e contra o que ele tinha de lutar para não só ser campeão mundial, mas também ganhar espaço entre a elite do automobilismo mundial. Assistir suas vitórias para os que eram fãs e os momentos finais de sua vida trazem lágrimas aos olhos, especialmente com a bela edição de imagens e depoimentos usados.

A edição de imagens cria realmente uma bela timeline mostrando não só as vitórias, mas os bastidores entre algumas das corridas mais importantes do piloto, desde cenas em família até no paddock e as conferências dos pilotos pré-corrida, entre elas, algumas nunca antes divulgadas ao público e que mostram o quanto a categoria era muito mais empolgante na época em que o piloto era mais importante do que a máquina. Outro mérito é pegar fontes de todos os lados, especialmente a família e comentaristas de F-1 (o brasileiro Reginaldo Leme entre eles) para falar de tudo aquilo que a televisão não nos passava nos sábados e domingos.

Se hoje em dia a F-1 perdeu a emoção, grande parte se deu devido ao aumento da preocupação com a segurança dos pilotos graças à morte de Senna, o último homem a morrer dirigindo um F-1 e talvez aquele que mais inspirou à grandeza todos aqueles que eram seus fãs, amigos e familiares. Senna era um exemplo, não por ser perfeito, mas por saber que tinha suas falhas e lutar a cada dia contra elas, reconhecendo-as em si mesmo após as reconhecer.

O legado de Senna permanece até hoje através do Instituto fundado por ele e sua irmã e seguirá ajudando milhões e milhões de crianças do Brasil, sem ter necessidade de sucumbir à politicagem e a máquina governamental, sendo reconhecido pela UNESCO para a Cátedra de Educação e Desenvolvimento Humano, uma das maiores honras que uma ONG poderia receber de um órgão das Nações Unidas.

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