AcervoCríticasFilmes

“Tenet” mostra como Christopher Nolan se tornou refém de magnitude que criou

“Tenet”, que chega nessa quinta-feira (29) aos cinemas brasileiros, como todos já sabem, é a nova estripulia do diretor inglês Christopher Nolan, conhecido por seu apreço por criar enredos que desafiam o espectador. Se hoje ele é um dos nomes mais festejados do cinema, isso se deve a essa característica. Nolan faz o chamado “blockbuster de autor”. Suas superproduções têm orçamento de fazer inveja a muito filme de super-herói e faturamento de aviltar diversos reboots ou remakes de sucessos consagrados.

São longas arrojados tecnicamente, com sequências de ação desconcertantes e tramas que geram discussão e teorias por meses. Quem em Hollywood hoje em dia consegue fazer tanto barulho produzindo longas que não são adaptação, continuação ou prequel de nada. E o pior, não deixam margem para uma continuação. Só Nolan tem essa moral.

O diretor Christopher Nolan (à frente) orientando o ator John David Washington

Mas é justamente esse status que está fazendo o cineasta se tornar refém. Refém do mito que ele mesmo criou em torno de si, e precisa perpetuá-lo, pois seu prestígio dentro da poderosa indústria cinematográfica depende dele. O estúdio (no caso a Warner Bros.) sempre concede a ele uma receita polpuda e uma bela data no verão norte-americano (a época em que as bilheterias sobem junto com a temperatura por lá) com toda a liberdade para realizar o que bem entender. O sonho de todo cineasta. Mas isso tem um preço. Ele deve perpetuar sua tradição de dar um nó na cabeça de quem está na sala de exibição e render assunto tanto na internet quanto na mesa de bar.

Corresponder a essa expectativa toda vez que liga a câmera deve ser um fardo. E a sensação é de que aquele brilhantismo espontâneo visto em “Amnésia” e na versão norte-americana de “Insônia” foi cada vez mais dando lugar a uma engenhosidade pragmática. “Tenet” é justamente o ápice disso.

Na trama complicadíssima para os desavisados, um agente da CIA (John David Washington) é recrutado por uma organização misteriosa que leva o nome do filme para participar de uma missão global que se desenrola além do tempo real. A missão: impedir que Andrei Sator (Kenneth Branagh escorregando na caricatura), um oligarca russo renegado com habilidades de precognição, inicie uma catástrofe. O Protagonista (sim, esse é o nome com que nos é apresentado o personagem) logo dominará a arte da “inversão do tempo” e com a ajuda de Neil (Robert Pattinson apenas correto) tentará impedir à ameaça que está por vir.

É basicamente uma trama de James Bond revestida como um Matrix para gente grande. E amoral de Nolan é tão alta que a Warner fez questão de lançar o longa em meio à pandemia nos EUA (por lá a estreia foi em setembro) obedecendo a orientação do cineasta de que o filme é feito para a telona. De fato, a experiência em IMAX, como em seus trabalhos anteriores, é a que dá toda a dimensão do que foi elaborado esteticamente.

No final das contas, “Tenet” é um filme evento, o primeiro da pós(?)-pandemia, e como tal é impossível ficar alheio a ele. Pelo ângulo da execução, a produção leva o selo Nolan de qualidade. Como experiência cinematográfica é valido – claro, para quem se sentir seguro em ir ao cinema nessa conjuntura, e sem esquecer a obediência rigorosa aos protocolos de segurança sanitária Quanto à prolixidade da narrativa, parece muita vela para pouco defunto.

Nota: Muito bom (3.5 de 5)

Deixe um comentário

Sugeridos
FilmesGamesTrailersVideos

‘Street Fighter’ Inova ao Lançar Trailer Jogável em Clima de Arcade Anos 90

Prévia interativa no YouTube Playable permite que fãs executem combos e golpes...

AstrosFilmes

Tim Curry (1946–2026): O Sorriso Sombrio que Iluminou a Cultura Pop

De cientista louco de salto alto em Rocky Horror a palhaço demoníaco...

CríticasFilmes

Nosso Segredo: A Materialização do Luto e a Casa-Quilombo de Grace Passô

Duas décadas após transformar o teatro brasileiro com a peça Amores Surdos,...

CríticasFilmes

‘Coyote vs. Acme’ é sagaz na proposta e no desenvolvimento

Longa resgata a nostalgia dos desenhos clássicos em uma sátira inteligente que...

AstrosFilmesListasMúsica

Dolly Parton e Suas Parcerias Mais Inusitadas

De duetos com os Beatles e Sylvester Stallone a participações em comédias...

CríticasTeatro

Excelente montagem de A Gaivota, de Tchekhóv

O Armazém Companhia de Teatro está de volta com uma nova montagem...

CríticasMúsicaShows

Após longo hiato, Flávio Venturini festeja 50 anos de carreira no Rio com show inspirado

Assistir a um show do cantor, compositor e tecladista Flávio Venturini sempre...

CríticasSéries

Segunda temporada de “Treta” fica aquém do brilhantismo da primeira

Você sabe o que é uma série de antologia? É aquela série...

CríticasFilmesLançamentos

Champagne (2026): uma inesquecível viagem de pai e filho

Ali pela metade do filme holandês “Champagne”, Hans está conversando com um...