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Verão de 85, novo filme de François Ozon, trata do primeiro amor sem cair em armadilhas narrativas

Alex está envolvido na morte de David. Isso fica claro desde o primeiro minuto de Verão de 85, novo filme de François Ozon. A história será contada em flashback e entrecortada por cenas do presente, com a assistente social tentando evitar que Alex seja mandado para a prisão.

Alex estava velejando com o barco de um amigo quando a embarcação virou. Foi David que o ajudou neste momento, e a parti daí se inicia a relação deles. David o leva para casa, onde irá emprestar a Alex algumas roupas secas. A mãe de David (Valeria Bruni-Tedeschi) fica encantada com o novo amigo do filho, e naquele mesmo dia chama Alex para trabalhar na loja que ela e David administram desde a morte de seu esposo, um ano antes.

A partir de então, Alex e David começam um romance que é abalado pela chegada de Kate, uma intercambista inglesa. De pedra no sapato do relacionamento deles a confidente de Alex, Kate demonstra ser vivaz e esperta.

Alex é fascinado pela morte, tendo gravuras egípcias coladas ao lado de sua cama e vendo sarcófagos onde há apenas banheiras. David tem um pente que se abre como um perigoso canivete: ilusão momentânea que serve de ímã simbólico para a atração entre os dois meninos, um primeiro amor marcante e mortal.

Um dos diretores franceses mais versáteis da atualidade, François Ozon tem no currículo dramas, comédias, musicais, remakes, curtas e longas-metragens. Trabalha num ritmo constante, e sempre evita cair na mesmice, surpreendendo o espectador. Foi o próprio Ozon que adaptou o livro “Dance on my Grave”, de Aidan Chambers, publicado em 1982. É, por isso, um filme nostálgico, da mesma nostalgia pelos anos 80 que já invadiu as telas pouco tempo atrás – por exemplo, na temporada de American Horror Story que se passava em 1984 – mas que nunca é uma nostalgia cega, exagerada. O distanciamento pequeno entre o narrador e o fato narrado – distanciamento de cerca de dois meses – ajuda a evitar esta construção nostálgica, sendo que os indicadores da época são apenas as roupas e o aparelho em que Alex ouve uma música com letra extremamente sugestiva em um momento-chave do filme.

A conexão com Me Chame pelo seu Nome é inegável, mesmo que exista apenas na cabeça dos espectadores: sim, Verão de 85 trata de um malfadado romance LGBT ambientado nas férias de verão nos anos oitenta. As semelhanças acabam aí. Alex e David têm pouca diferença de idade, ambos são moradores da região e há traços de mistério, comédia e até uma referência a um curta-metragem anterior de Ozon. E, além de ter romance, o filme fala sobre arte, sobre catarse com música e escrita, lembrando, num primeiro momento, o filme francês Diário da Minha Cabeça, mas extrapolando as possibilidades.

Verão de 85 pode ser entendido como um filme do subgênero “coming of age”: um filme que mostra um personagem adolescente tendo uma experiência que lhe trará algum tipo de crescimento, em especial emocional. O grande triunfo do filme, dentro deste subgênero, é mostrar como o primeiro amor – seja ele por uma pessoa do mesmo sexo ou do sexo oposto – é cheio de idealizações. Alex idealiza David, de modo que, mesmo estando em sua companhia, parece estar com outra pessoa. É a chegada de Kate que quebra essa idealização e traz conflito.

Félix Lefebvre, que interpreta Alex, e Benjamin Voisin, intérprete de David, foram indicados ao prêmio César de Ator Mais Promissor por Verão de 85. Com menos de cinco anos de carreira cada um, fica evidente que terão muitas oportunidades e sucesso pela frente, e o mesmo pode ser dito para Philippine Velge, atriz belga criada na Inglaterra, que interpreta Kate.

Não tão bom quanto o filme anterior de Ozon, Graças a Deus, e bem distante de outro filme LGBTQ de época, o elogiado Retrato de uma Jovem em Chamas, Verão de 85 evita várias armadilhas que desembocariam num desfecho demasiadamente trágico e trata do primeiro amor sem idealização ou nostalgia – o que, por si só, já faz o filme valer a pena.

Nota: Excelente – 4 de 5 estrelas

Verão de 85, novo filme de François Ozon, trata do primeiro amor sem cair em armadilhas narrativas
4 / 5 Crítico
Avaliação

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