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“A Morte da Luz” de George Martin: a evolução moral inerente ao comportamento humano

 

“A Morte da Luz”, primeiro livro escrito por George R. R. Martin, fora uma obra que me encantou e surpreendeu ao mesmo tempo. Talvez tenha sido a junção da sinopse com a capa da edição brasileira, que traz uma das paisagens de Worlorn – um planeta moribundo preso aos raios doentes de um gigante vermelho prestes a morrer – que tenha me causado uma impressão imprecisa do que se tratava exatamente o romance. Logo de cara, após ler algo que fazia menção à enfermidade daquele sol, pensei imediatamente que a trama trataria dos problemas de um povo que espera calmamente a morte. Não sei precisar exatamente porque fiquei com tal impressão, mas quando finalmente entendi do que se tratava o livro (logo nas primeiras 30 páginas), as surpresas que a contundente narrativa de Martin reservou muito me agradaram.

Dirk t’Larien é chamado a Worlorn por seu antigo amor Gwen Delvano, através de um pacto antigo que garantia um laço eterno de confiança entre os dois: a joia-sussurrante. Sem saber exatamente porque fora chamado, Dirk se contenta em esperar durante um tempo razoável para que tal motivo se revele. Durante esse período, percebe que Worlorn é praticamente um planeta fantasma, embora ainda seja habitado por alguns seres-humanos. Entre eles, os kavalarianos, humanos habitantes do planeta bárbaro Alto-Kavaalan, lugar cujo atual amante de Gwen, Jaan Vikary, pertence.

Conforme se intera acerca dessa cultura tão peculiar que é a kavalariana, Dirk percebe que Gwen não é apenas uma esposa de Jaan, mas aparenta estar presa a ele de alguma forma, e é então que ele decide proteger seu antigo amor a todo o custo.

Martin reserva a primeira parte do livro para praticamente nos apresentar o rico universo por ele imaginado. Conhecemos não só a história de Worlorn e o cenário político recente dos mundos conhecidos, como suas maravilhosas cidades, frutos arquitetônicos dos diferentes povos habitantes de outros mundos; inclusive a fauna e a flora extremamente peculiares do planeta moribundo. Martin faz uma descrição precisa e um tanto quanto poética, aliando a desolação de um planeta fadado ao esquecimento e a magnificência do intelecto humano materializado em suas criações.

Entre os ambientes únicos e a tecnologia futurista – tipicamente abordada em romances de ficção-científica, o autor também cria um panorama que explora os choques de culturas de diferentes planetas em meio a interesses pessoais que apoiam ou condenam certas ideologias conforme dita a conveniência. Nesses pontos, Martin é magnífico, e acaba cativando o leitor usando praticamente sua narrativa descritiva junto a um tom peremptoriamente político, o que, em um primeiro momento, funciona como uma ferramenta extremamente eficiente, cuja função é nos deixar mais curiosos acerca do real motivo da visita de Dirk à Worlorn; como se o autor nos hipnotizasse com as maravilhas do planeta e resguardasse a trama principal para um segundo momento. Posteriormente, isso acaba por conceder um caráter levemente inverosímel ao romance, já que seria um tanto quanto improvável que alguém viajasse alguns anos luz para um planeta praticamente morto e nem sequer questionasse porque exatamente fora chamado ali. (Apenas uma ressalva: esse fato não me incomodou muito já que me permiti imaginar as diferentes culturas descritas no livro como algo bem particular e, nesse caso, um comportamento incomum seria perfeitamente plausível).

O movimento seguinte revela uma trama mais sombria, que une o passado de Gwen e Dirk e o conhecimento que adquirimos principalmente sobre a cultura kavalariana (que por sinal é muito bem trabalhada, cujos códigos de honra e lendas soam extremamente complexos e lógicos) com temas que vão de preconceito e mudança de paradigmas a confiança, desejo e amores platônicos. Os temas abordados fazem um paralelo crítico com a história da humanidade, revelando que comportamentos aparentemente absurdos, de uma cultura literalmente alienígena, de fato podem ocorrer, e nem são tão estranhos assim, se olharmos para a nossa própria cultura e para os nossos próprios preceitos morais. Os diferentes povos do romance, na verdade, parecem ser a personificação das distintas correntes de pensamento humano que se põem em constante mutação através das eras; como se os planetas abrigassem humanos de diferentes tempos. Neste caso, digamos que os kavalarianos tradicionais representam conceitos medievais de pensamento.

Conforme o argumento se desenvolve, a atmosfera vai se tornando mais urgente e violenta, prenunciando um fim espantosamente dramático. Enfim, somos brindados com conceitos pertinentes que fazem contraste ao caos criado no final do romance. Vemos que o ser humano se mantém em constante evolução moral, e que o progresso é praticamente impossível de ser contido.

Publicado originalmente em 1977, “A Morte da Luz” foi traduzido e publicado pela editora Leya no começo desse ano. Certamente é uma excelente obra de ficção-científica, com todo um universo complexo e criativo o suficiente para servir de ambiente para mais uma dezena de obras. Até para quem não é muito fã do gênero, mas um leitor de “As Crônicas de Gelo e Fogo”, é interessante ver alguns conceitos básicos, posteriormente reaproveitados, nascendo. Como as similaridades entre alguns personagens (Bretan Braith e Sandor Clegane, por exemplo).

[xrr rating=4.5/5]

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