Literatura

Budapeste, de Chico Buarque, é para ser lido num só fôlego

Em “Budapeste”, José Costa é um ghost writer que se vê dividido entre dois mundos: de um lado, o Rio de Janeiro e seu amor por Vanda, de outro, Budapeste, onde se apaixona pelo idioma húngaro ensinado por sua amante, Kriska. Em suas duas relações, se vê oscilando entre a proximidade e o mais frequente distanciamento de suas amadas. Como escritor anônimo, José se frustra com seu sucesso sob a suposta autoria de outros nomes ao mesmo tempo que, contraditoriamente, age de modo a consolidar sua permanência no mundo do anonimato. Desta situação angustiante, ele encontra um refúgio no “Congresso Anual de Escritores Anônimos”.

A estória se desenvolve em ciclos em que as recordações e divagações tomam espaço e se transformam na narrativa principal, envolvendo o enredo com um quê de atemporalidade vertiginosa. Chico Buarque, com seu estilo um tanto anticomercial para os atuais paradigmas de escrita de ficção, produz uma obra do tipo que se ama ou se odeia. Sua narrativa contínua parece ter um só fio em que a trama evolui e se modifica. Seus longos parágrafos se estendem por páginas tornando a leitura, em alguns momentos, enfadonha e, em outros, cativante. Tudo isso faz de “Budapeste” um livro que pede para ser lido de um só fôlego. Na verdade, a sensação é de um livro escrito, também, de uma só vez.

Sem muita ação ou twists, “Budapeste” vale a pena ser lido por sua linguagem poética cheia de construções inteligentes e instigantes, formando um labirinto de palavras que envolve e, por vezes, encanta, conduzindo a um final surreal, apesar de previsível.

A especificidade do estilo de Chico se perde um pouco na transposição de seu livro para a linguagem do cinema, sob a direção de Walter Carvalho. O que já era de se esperar, ainda que vários trechos do livro apareçam na voz do narrador.

[xrr rating=3/5]

  • Fiquei com vontade de ler o livro. Conheço mais o Chico músico e poeta e achei interessante você falar dessa característica anticomercial da obra, característica que está tb na sua produção musical, e acho algo bem legal pois afasta o autor dás fórmulas e padrões pré estabelecidos que geralmente produções comercias apresentam.

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